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IMAGENS ESCRITAS DE ABRANTES... BARÃO BERTELINHO e JOSÉ PÉRES

Com duas das quatro figuras sociais da Vila de Abrantes dou por fim a publicação de alguns textos que mostram a fotografia escrita de Abrantes do Século XIX, início Século XX. Ao autor do livro "LANÇANDO AO VENTO... no Concelho de Abrantes", período 1885/1905, Coronel Joaquim Maria Valente, como abrantino, presto homenagem:

QUATRO FIGURAS SOCIAIS
Em todas as localidades houve sempre indivíduos, que pelo seu modo especial de ser e por actos mais ou menos excêntricos sob algum ponto de vista, se tornaram alvo da curiosidade das outras pessoas, e cuja lembrança per­dura na memória de quem os conheceu, lembrança que pouco a pouco se irá esbatendo à medida que os contem­porâneos e alguns imediatos sucessores foram desapare­cendo.
Abrantes, durante o período a que se referem estes apontamentos, não se subtraiu a tal imposição do destino, e assim na nossa memória perduram quatro indivíduos cujas figuras sociais, como históricas que são, procuramos esboçar focando as características principais, que os tor­naram alvo da curiosidade dos contemporâneos.
Eram os senhores:
Barão de Bertelinho
Padre António
José Péres
Comendador Pataròxa
O SENHOR BARÃO DE BERTELINHO
A notável Vila de Abrantes não fugiu à regra de, como a maior parte das terras pequenas, ter pessoas que pelo seu invulgar modo de ser se tornavam um tanto notáveis, dando origem, às vezes, a episódios um tanto picarescos ou pelo menos originais.
Sob tal ponto de vista lembramo-nos das quatro pes­soas anteriormente mencionadas.
O senhor Barão de Bertelinho, com jazigo individual no cemitério, fora juiz na comarca, e, na época em que o conhecemos, estava já aposentado. Vivia na sua moradia, casa grande existente perto do portão dos Quinchosos e que têm fachadas dando para a Rua Grande e para a Rua de S. Pedro.
Era servido por um criado de nome José, o José do Barão, e respectiva mulher.
Era pessoa quase octogenária, de baixa estatura e lembramo-nos de o ver, às tardes amenas, sair a passeio pelo referido portão, barretinho na cabeça, cachecol no pes­coço, embrulhado em xale e manta, a cavalo sem espo­ras em mulinha com estribos de sola e guiada e segura à mão pelo Criado, o José do Barão.
O passeio era em regra curto ë não ia além de Bar­reiras do Tejo, pela calçada que liga aquela localidade com a Rua da Barca.
Ora o Senhor Barão era frequentador da farmácia Neto e palrador nas conversas baratas que naquele tempo se estabeleciam nas farmácias, para acompanhar o bater das pedras dos jogos de gamão e de damas, cujo taboleiro pa­recia fazer parte oficial do respectivo regimento.
Para molhar a língua seca pela conversa ele aprovei­tava o movimento do farmacêutico para, quando este dava costas, abrir a vitrine próxima e tirar da prateleira o frasco do Xarope Simples e tomar rapidamente uma boa golada do xarope, cujo nível ia diminuindo notavel­mente no frasco.
Depois de se certificar do que o Senhor Barão fazia, o farmacêutico preparou-lhe uma partida pondo no frasco não xarope simples mas sim xarope de ipecacuanha, vo­mitório eficaz, que quando chegou ao estômago do Senhor Barão produziu os respectivos efeitos, que o obrigaram a correr rapidamente para casa, sem deixar de dirigir palavras feias ao farmacêutico e aos outros frequentado­res da farmácia, os quais, sabedores da partida, riam rui­dosamente.
A partida foi considerada de tal ordem pelo Senhor Barão que ele nunca mais voltou à farmácia.
Mas ô Senhor Barão era naturalmente como um nosso professor da antiga Escola do Exército, que dizia aos alunos: Eu não sou vingativo mas quem mas fizer paga-as.
O Senhor Barão não era pois vingativo mas passado algum tempo exigiu o pagamento da letra que ficará aceite.
Meteu-se na cama, chamou o criado e disse-lhe: José, vai à farmácia (Neto e diz ao farmacêutico e ao Sr. Antó­nio da Luz que eu estou a morrer, e que desejo despedir--me dos meus bons amigos.
O criado chorando desempenhou-se maravilhosamente da incumbência, e assim os dois amigos, muito conster­nados, lá foram ver o senhor Barão, que, deitado na cama, imóvel e com respiração estertorosa e com o olhar fixo no tecto da casa, nada dizia, parecendo estar a transpor os umbrais da eternidade.
Os dois amigos disseram então ao criado, que solu­çando dizia que o senhor Barão já não via nem ouvia: veja lá José, o que faz, ponha as suas coisas de lado, se­pare bem o seu dinheiro e tudo o que é seu, porque ama­nhã ou depois, morto o senhor Barão, aparecerão aqui as pessoas da família e tudo o que está nesta casa será delas.
Depois lançaram um olhar de comiseração para o leito do Sr. Barão que, com o olhar fixo no tecto do quarto, já dificilmente respirava, e de pé ante pé sairam do quarto.
Quando porém transpunham a porta volveram para trás os olhos e viram o moribundo sentado na cama e ouviram-lhe a voz sonora e bem clara dizendo: ó José os meus inolvidáveis amigos ainda aí estão?
Então é que eles compreenderam a partida do Senhor Barão, naturalmente para ser contraposta à partida do xarope da ipecacuanha em vez do inofensivo xarope simples. Sairam por isso protestando ruidosamente, ba­tendo com os pés e com a porta, e a amizade com o senhor Barão desapareceu de vez.
A conclusão a que se chega é que o senhor Barão to­mando furtivamente saborosas goladas de xarope simples e depois fingindo-se moribundo para se divertir à custa da ingenuidade dos seus adversários do jogo de gamão, atraindo-os a sua casa por intermédio do criado que chorava copiosamente, era um ratão, isto é, um folgazão de gosto singular, pois naturalmente ficava muito satis­feito com as partidas engraçadas que fazia.
Como é sabido não são iguais os gostos de todos os ratões. Variam eles como as mentalidades, as idades e os objectivos que pretendem atingir com as ratices que põem em acção.
E na nossa memória ainda visionamos o Senhor Barão saindo a passeio, montado numa mulinha, com os pés enfiados em estribos de sola, sem esporas, de barretinho na cabeça, de cachecol, e embrulhado no seu chalé e manta e com o José do Barão, bem conhecido em toda a Vila, segurando a mula pelas rédeas.
E isto que se passou nos fins do século passado parece--nos ter passado há semanas!
E assim dizem vai passando o tempo. Nós porém dize­mos: o senhor Barão já passou e não o tempo, e nós também havemos de passar de todo, pois desde que nas­cemos estamos passando.
Talvez seja por isso mesmo que na escola primária são ensinadas às crianças a conjugar o verbo no pretérito, no presente e por fim no futuro... Eu passei, nós passa­mos e eles passarão...
Abrantes - Jazigo Barão Bertelinho
O SENHOR JOSÉ PÉRES
O senhor José Péres era um homem já um tanto avan­çado na idade, simpático, um tanto baixo, atarracado e dava nas vistas por usar colete e jaqueta cujos botões eram libras, libras ouro, autênticas, de cavalinho, e abundante corrente de libras ligada ao seu relógio tam­bém de ouro.
Tendo aparecido na arcada do Terreiro do Paço com tal indumentária foi visto pelo ainda não ultrapassado grande caricaturista que foi Rafael Bordalo Pinheiro, que o caricaturou com o título de «Bezerrinho de Ouro».
Tinha a sua casa na Barroca da Praça, onde existiam acomodações para uma charrete e respectiva mula.
Vivia dos seus rendimentos e da sua casa saia ele para a sua vida na charrete conduzida por um criado.
De uma vez, tendo de ir ao Rossio ao Sul do Tejo, che­gou à entrada da ponte, onde tinha de pagar a respectiva portagem.
A tabela da ponte era a seguinte, na parte que inte­ressa:
Peão………………………………………………………………………… 5 réis
Cavalo, macho ou mula …………………………………………………...10 réis
Carro de duas rodas puchado por cavalo ou mula…………………………20 réis
O cobrador pedia-lha 20 réis, mais 5 réis por ele e outros 5 réis pelo criado ao todo 30 réis ou seja hoje $03.
Protestos do senhor José Péres, porque, dizia ele, nem ele nem o criado eram peões a passar a ponte, visto irem sentados dentro da charrete, e fazendo as suas contas disse que não pagaria mais de 10 réis, equivalente hoje a $01.
Protestos agora do cobrador que dizia ter de cumprir a tabela.
Ora muito bem, disse então o senhor José Péres, o senhor cobrador vai fazer cumprir à risca a tabela, porque eu também não quero o prejuízo de ninguém.
Manuel, disse para o criado, apêa-te, desatrela a mula, mete-te entre os varais e puxa a charrete. Eu irei dentro dela com as rédeas da mula na mão, pois a mula irá atrás da charrete.
E agora, senhor cobrador, o que indica a tabela? Charrete puxada por homem entre varais não está pre­vista na tabela e portanto nada paga. Eu não sou peão, porque vou sentadinho dentro da charrete e assim nada pago. Pagará a mula que vai pelo seu pé 10 réis. Aqui tem senhor cobrador 10 réis e dê as minhas respeitosas sau­dações ao senhor Visconde de Tramagal. (O senhor Visconde era o arrendatário da ponte).
E assim passou a ponte por 10 réis, ao som das garga­lhadas do cobrador o folgasão do senhor José Péres, com a sua charrete, o criado e a mula.
O grande divertimento do senhor José Péres era porém o Judas estourando na Praça do Concelho, em sábado de Aleluia.
O Judas era um boneco figurando, em tamanho natu­ral, um homem completamente vestido de calça e casaco, com chapéu de coco na cabeça, e ligado a um poste cra­vado na praça.
O boneco tinha os bolsos recheados de bombas de 10 réis e dentro do chapéu uma bomba de maior potência, de pataco.
Logo que na Igreja de S. João tocavam os sinos anun­ciando a Aleluia, o fabricante do boneco, com a assistência do Senhor José Péres e de abundante rapazio, que muito gostava de ouvir o estourar das bombas e sentir o cheiro da pólvora queimada, e com as janelas da Praça cheias de Senhoras e de meninas, lançava fogo ao rastilho, a que se seguiam os estouros sucessivos das bombas, que en­chiam os bolsos do boneco, até que a mais potente esfar­rapava o chapéu de coco, fazia desaparecer a cabeça e acabava o lançamento de fogo, ao fato que ficava completamente consumido, restando por fim apenas o poste de madeira.
Era nisto que consistia o chamado «Judas» do senhor José Péres, que muito se divertia entre as palmas do rapa­zio e as gargalhadas das pessoas graúdas.
Vê-se assim que o senhor José Péres era um ratão de gosto engraçado, inofensivo e que muito se divertia com as suas ratices.
(PÁGINAS 73/74/75/76/77/78/79 - do livro "Lançando ao Vento... no Concelho de Abrantes - Caderno do Coronel Valente". O texto é uma cópia do referido livro. 


Abrantes - Jazigo José Péres

IMAGENS ESCRITAS DE ABRANTES... A GUERRA DAS PIPAS

No ano em que se comemora o "Centenário de Abrantes como Cidade", nada melhor de que recordar alguns textos (escolhidos), imagens escritas, que o Coronel Joaquim Maria Valente, autor do livro "LANÇANDO AO VENTO... no Concelho de Abrantes" consagrou à então Vila de Abrantes, período 1885/1905: 
-Na próxima publicação do mesmo autor e livro: “O SENHOR BARÃO DE BERTELINHO (Juiz da Comarca) e SENHOR JOSÉ PÉRES (Figura inspiradora de Rafael Bordalo Pinheiro na criação do ZÉ POVINHO”.

A «GUERRA DAS PIPAS»
A pequena distância do «Papa Feijão» constituía o canto existente entre este edifício e a entrada do Castelo um parque, onde os negociantes de azeite instalados na Ferraria guardavam os cascos do seu negócio, quando vazios.
Era lá que alguns dos poucos estudantes locais, (estu­dava-se pouco naquele tempo) na idade dos doze a treze anos, reuniam de vez em quando, ao lusco-fusco, e prati­cavam, divididos em dois partidos, simulacros de combate, não a tiro, mas à pedrada a coberto dos cascos vazios.
O entusiasmo subia de ponto quando os impactos nos cascos de pedras grandes, guardadas para o fim, ecoavam fortemente e então dizia-se ser a artilharia de grosso cali­bre, que chegava para fazer a decisão da batalha. Simulacro de corpo a corpo punham fim ao combate com honra para os dois partidos.
Em época em que não era ainda conhecido o futebol nem a bicicleta, era a chamada «guerra das pipas» um divertimento um tanto violento, de que só os referidos rapazes usavam como exercício a coberto das sombras do crepúsculo, em sítio pouco frequentado.
Lembramo-nos de que de tais combates era grande en­tusiasta a estudante Raul Esteves, filho de um segundo comandante de regimento de caçadores 8, rapaz que veio a ser oficial de engenharia, esteve no CEP em França (guerra de 1914), foi observador activo na guerra civil de Espanha e andou embrulhado nalgumas das revoluções que se seguiram à de 5 de Outubro de 1910, tendo falecido há poucos anos no posto de general.
Disse-nos ele algumas vezes, recordando Abrantes e o bom tempo de autrora, foi na nossa guerra das pipas que eu iniciei a minha carreira militar. Foi ela para ele, notamos nós, de aspecto voluntariamente combativo.
E ao descermos a encosta da colina é doce, como diz Guerra Junqueiro, parar, volver muito para trás a me­mória e soletrar a sua bela quadra:

Lembram-se vocês do bom tempo de outrora,
Do tempo que passou e que não volta mais,
Quando íamos a rir pela existência fora
Alegres como em Junho os bandos de pardais?
(PÁGINAS 58/59 - do livro "Lançando ao Vento... no Concelho de Abrantes - Caderno do Coronel Valente". O texto é uma cópia do referido livro. 


IMAGENS ESCRITAS DE ABRANTES... JUSTIÇA E FAZENDA PÚBLICA

No ano em que se comemora o "Centenário de Abrantes como Cidade", nada melhor de que recordar alguns textos (escolhidos), imagens escritas, que o Coronel Joaquim Maria Valente, autor do livro "LANÇANDO AO VENTO... no Concelho de Abrantes" consagrou à então Vila de Abrantes, período 1885/1905: 
-Na próxima publicação do mesmo autor e livro: A “GUERRA DAS PIPAS”

JUSTIÇA E FAZENDA PÚBLICA
A Praça do Concelho além de ser o centro comercial da Vila era também o seu centro social.
Para ela dava uma fachada do edifício da Câmara Mu­nicipal, cuja porta de entrada dava para a rua do Outeiro, e nele estava instalada a sala do Tribunal Judicial e as repartições da Câmara. No andar inferior ao da Câmara e do Tribunal existiam as prisões, de que algumas janelas gradeadas com barras de ferro davam para a Praça, o que constituía paisagem desagradável em pleno coração da Vila.
No rés-do-chão do edifício, com a porta para a Praça, estava depositado o material de incêndios (ao tempo duas bombas manuais, carro de escadas e pouco mais). Ao lado do compartimento do material de incêndios existia a casa da guarda militar fornecida pelo regimento de caçadores n.° 8 e cuja sentinela se abrigava em guarita colocada junto da porta. :Na fachada que dava para a Rua da Cadeia existia a janela gradeada do aljube, prisão insalubre de pequeno pé direito, que não recebia acção directa da luz solar e cujo pavimento, mais ou menos húmido, era lageado.
Como Juízes do Tribunal lembramo-nos do Dr. Acácio Alvares de Melo e Dr. Lobo de Moura, que residia na Rua do Castelo e que tinha ligações literárias com o grupo dos Vencidos da Vida de que faziam parte Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Oliveira Martins, Guerra Junqueiro, e outros. Como Delegado do Procurador Régio lembramo-nos do Dr. Pedroso Barata, que residia na Rua da Barca e que veio a falecer na categoria de Juiz da Relação.
Os Ofícios Judiciais eram três, entregues aos escrivães de direito e ao mesmo tempo tabeliães: Emílio Segurado, Rafael Apolinário e Silva Rosa, com os cartórios nas respectivas residências, respectivamente na Praça da Palha, Largo dos Quinchosos e Rua Adiante.
Na advocacia existiam os Drs. M. Temudo, Moura, Ma­nuel Martins, António Ferreira Bairrão e António Maria de Araújo, de longas barbas e lunetas. Este último era Conservador do Registo Predial tendo a Conservatória na sua residência na Rua da Barca de Cima.
Nos serviços da Fazenda Pública (hoje Finanças) lembramo-nos de um muito diligente escrivão de apelido Barbosa, que veio a falecer de cancro num braço, e outro não menos diligente de sobrenomes Abreu Marques, e do recebedor, de nome António Apolinário, pessoa extrema­mente bondosa, seriedade absolutamente incorruptível, conhecido por todos os contribuintes do Concelho em virtude do seu génio, cujas manifestações de irritação derivavam do seu carácter correctíssimo, aprumadissimo e ao mesmo tempo afectuoso e que na verificação das contas do movimento diário da recebedoria fazia as somas de muitas parcelas, com lápis na mão e lunetas na ponta do nariz, com rapidez quase de uma máquina de calcular actual.
A Repartição de Fazenda funcionava em casa alugada na Rua Grande, defronte da casa de residência do Visconde de Abrançalha e a Recebedoria, funcionava na casa de residência do respectivo recebedor, na Rua de S. Pedro.

(PÁGINAS 30/31/32 - do livro "Lançando ao Vento... no Concelho de Abrantes - Caderno do Coronel Valente". O texto é uma cópia do referido livro. 

IMAGENS ESCRITAS DE ABRANTES... COMÉRCIO

No ano em que se comemora o "Centenário de Abrantes como Cidade", nada melhor de que recordar alguns textos (escolhidos), imagens escritas, que o Coronel Joaquim Maria Valente, autor do livro "LANÇANDO AO VENTO... no Concelho de Abrantes" consagrou à então Vila de Abrantes, período 1885/1905: 
-Na próxima publicação do mesmo autor e livro: "JUSTIÇA E FAZENDA PÚBLICA"

COMÉRCIO
O mercado ao ar livre dos géneros de primeira neces­sidade, excepto carne e peixe, tinha lugar diariamente na Praça do Concelho, na qual eram na ocasião armados tabuleiros municipais. As respectivas vendedeiras prote­giam-se com grandes chapéus-de-chuva sustentados por suportes apropriados. A carne de vaca e de carneiro, provenientes do matadouro de Santo António, era vendida em loja de edifício particular, cuja fachada dava para a Praça.
A carne de porco era vendida em loja de edifício par­ticular existente na rua do Outeiro.
O peixe era vendido em pequeno mercado ao ar livre, cujos tabuleiros municipais eram armados na Praça da Ferraria em comunicação directa com a Praça do Con­celho por intermédio da Rua dos Oleiros.
Os estabelecimentos principais existiam na Praça do Concelho e no início das ruas que de lá partiam (Rua dos Castanhos, da Barroca da Praça, do Outeiro, dos Olei­ros, e da Sardinha), pelo que a referida praça era de fac­to o centro comercial da Vila.
   Além do comércio retalhista abastecedor da população da Vila, Abrantes tinha então comércio impor­tante, por grosso, de cereais e azeites, cujos negociantes tinham os respectivos estabelecimentos na Ferraria e pro­ximidades e o depósito dos cascos vazios no canto que fi­cava entre o edifício denominado Papa Feijão, parque de material de artilharia, e a entrada para o Castelo.
O azeite vinha em regra em odres a dorso de mulas e de burros das regiões de Sardoal, Vila de Rei, Sernache, Amêndoa, etc., e seguia para Lisboa em cascos conduzi­dos para a estação de caminho-de-ferro em carros de duas rodas puxados a mulas.
O caminho-de-ferro da Beira Baixa, construído nos primeiros anos do período a que se referem estes aponta­mentos, e os primeiros estabelecimentos industriais e co­merciais instalados em Alferrarede, sob a influência da proximidade da respectiva estação de caminho-de-ferro, modificaram a situação comercial que pouco a pouco se instalou por completo em Alferrarede.
O azeite era medido a décalitro com o nome de alqueire e vazado nos cascos, pois nesse tempo ainda não era usada a balança.
Após a vasão do décalitro no casco o medidor, que chegou a ser quase um profissional, enxugava o interior da medida com uma esponja, cujo azeite apanhado era vazado no casco. Por este processo era afastado qualquer erro importante proveniente da viscosidade do azeite.
A Praça do Concelho era como dissemos, o centro comercial e, por assim dizer, o Centro Social, em virtude de os estabelecimentos serem centros atractivos para os amadores de conversas em regra banais, e da chamada má língua local.
Alguns dos comerciantes ali estabelecidos tinham alcunhas derivadas dos respectivos aspectos físicos, do modo de ser de cada um, etc. Parece que Abrantes fora sempre amiga de se divertir por tal processo. De resto não era só na Praça que havia alcunhas pois elas tam­bém existiam em habitantes de ruas distantes dela.
Como se trata de registo de factos, que podem inte­ressar aos curiosos do passado, referentes a indivíduos já envolvidos nas sombras do túmulo, vamos referir de modo impessoal, algumas alcunhas. Quem as conhecer ainda poderá lembrar-se dos indivíduos mas quem as desconhece fica ciente de que elas existiram, e este as­pecto é que interessa para a história.
Algumas alcunhas: Porquinho da índia, Mocho, Abó­bora, Altinho, Expele Traçados, Lerias, Brazileiro, Cu de Chumbo, Olho de Vidro, Pateiro, Misérias, Escalda Pre­gos, Perneta, das Areias, Dominguinhos, etc.
 (PÁGINAS 26/27/28 - do livro "Lançando ao Vento... no Concelho de Abrantes - Caderno do Coronel Valente". O texto é uma cópia do referido livro. 

IMAGENS ESCRITAS DE ABRANTES... NOTÁVEL VILA DE ABRANTES

No ano em que se comemora o "Centenário de Abrantes como Cidade", nada melhor de que recordar alguns textos (escolhidos), imagens escritas, que o Coronel Joaquim Maria Valente, autor do livro "LANÇANDO AO VENTO... no Concelho de Abrantes" consagrou à então Vila de Abrantes, período 1885/1905: 
-Na próxima publicação do mesmo autor e livro: "COMÉRCIO"
A NOTÁVEL VILA DE ABRANTES 
ANTIGAS OBRAS DE DEFESA EDIFÍCIOS PÚBLICOS, RUAS E PRAÇAS
     Durante o período 1885-1905 a então denominada No­tável Vila de Abrantes existia apenas na área abrangida pelo perímetro de muralhas, que com dez obras de fortificação permanente a colocaram na lista das antigas praças de guerra.
Grande parte dos panos de muralha já tinham desaparecido ou por demolição ou por incorporação em edifícios particulares. Os terraplenos e os fossos, em grande parte aterrados e nivelados, constituam quintais de habitações e, das obras de fortificação apenas existia o Castelo, como reduto final que foi de defesa, pois as outras obras: do Adro Velho, da Esperança, de Santa Iria, de Sao. Francisco, de Santo António, do Vale do Judeu, dos Fornos de Assento, de Sao Domingos, de Santo André, já não existiam.
Dos sete primitivos portões das muralhas só existiam os vãos de dois — o da Rua da Barca e o dos Quinchosos, — pois os outros — o do Chafariz, o da Rua do Cabo, o da Ferraria, o de Santana e o de Santo António — já tinham sido demolidos.
Quanto a Praças e Ruas existiam as dos tempos idos, algumas com nomes que a política, conjugada com a fantasia, tinham substituído por outros registados em letreiros existentes nas paredes de alguns prédios.
Abrantes não resistira à onda demolidora de tradições que deviam ser queridas, permitindo a contradança dos nomes que descaracteriza os aglomerados urbanos.
Évora soube resistir, pelo menos em primeira fase, a tal onda, pois uma edilidade que encontrou ruas e praças com os chamados nomes modernos, determinou serem mantidos também os nomes antigos e assim lê-se lá nos letreiros:
Rua de ... ... ...
Antiga Rua de ... ... ...  ... ...
Compreende-se que a uma rua nova seja dado um nome escolhido na ocasião da sua abertura mas é injustificável, chegando a ser um abuso moral de autoridade, alterar o nome que tem uma rua antiga, o qual já faz parte das características da povoação, que com a mudança fica parcialmente descaracterizada, como mutilado fica o registo da sua história, embora haja gente que não possa compreender estas coisas.
E o público, que é sempre tradicionalista e sensato, reage sempre contra as mudanças. Em Lisboa, por exemplo, ninguém chama ao Rossio Praça de D. Pedro IV, nem ao Terreiro do Paço Praça do Comércio, nem à Rua dos Capelistas Rua do Comércio, etc.
Em Abrantes existem também o Rossio, a Rua Grande, a Rua do Outeiro, etc., que nem todas as pessoas desi­gnam pelos nomes modernos.
E sendo assim notamos que, no período a que se re ferem  estes  apontamentos,  as praças e ruas principais então existentes eram:
Praça do Concelho
Praça da Ferraria
Praça da Palha de Cima
Praça da Palha de Baixo
Praça de Santa Cruz dos Pasteleiros
Rossio
Largo da Misericórdia
Largo dos Quinchosos
Rua Grande
Rua Adiante
Rua do Outeiro
Rua dos Castanhos
Rua de S. João
Rua do Almada
Rua de S. Pedro
Rua da Graça
Rua da Boga
Rua do Cabo
Rua da Barca de Cima
Rua da Barca de Baixo
Rua de Santa Iria
Rua do Arcediago
Rua do Castelo
Rua dos Paços do Concelho
Rua dos Oleiros
Rua da Sardinha
Rua da Barroca da Praça
Rua da Videira
Carreira dos Cavalos
      A Praça do Concelho era já denominada Praça Rai­mundo Soares.
      A Rua Grande tinha já o nome de Rua Santos e Silva.
      A Rua dos Castanhos passara a ser Rua Serpa Pinto. 
      A Praça Santa Cruz dos Pasteleiros, que depois foi Largo dos Pasteleiros, era denominada Largo João de Deus.
O Rossio era a Praça do Barão da Batalha.
Hoje é provável que tais denominações já tenham sido substituídas por outras moderníssimas.
Dos quatro Conventos legados pelos tempos passados: Esperança, Santo António, Graça e S. Domingos, só exis­tia o da Graça, completo, com as respectivas Igreja e cerca, e só veio a desaparecer por demolição depois da morte da última freira professa, facto que se deu no pe­ríodo a que se referem estes apontamentos.
O Convento de frades de S. Domingos, com amplia­ções e adaptações era quartel das tropas de Infantaria, seja ao tempo quartel do regimento de caçadores nº 8, o da Esperança, depois de várias adaptações, era sede do Distrito de Recrutamento e Reserva, escola oficial primá­ria do sexo masculino e parte dele estava adaptado a tea­tro. (Era o Teatro Taborda), em homenagem ao actor Taborda, natural de Abrantes.
O de Santo António já não existia e no seu lugar fora construído o Matadouro Municipal.
Em parte da área onde existiu o Convento da Graça foi construído o actual edifício das Repartições Públicas.
O Rossio, praça existente defronte do Quartel de S. Do­mingos, era muito utilizado para exercícios de instrução dos recrutas das tropas alojadas no quartel, e nele eram armadas as barracas da feira anual de S. Matias, de quin­quilharias, mobiliário e louças regionais, ourivesaria, tecidos, etc, e de alguns divertimentos (tiro ao alvo, fan­toches, circo, figuras de cera, etc,). Em tal feira nunca faltava a barraca de quinquilharias de dois irmãos, que todos os habitantes de Abrantes conheciam e estimavam: a Mana Escolástica e o Mano Miguel, parecendo que a feira deixaria de existir logo após o falecimento dos dois. Os acontecimentos porém seguiram o seu rumo natural, pois os manos faleceram mas a feira, tendo mudado de local, não deixou de existir. O facho passou a outras mãos e a vida continuou, mas aqui fica evocada a memória dos dois tão simpáticos feirantes — a mana Escolástica e o mano Miguel.
Voltando à denominação das ruas, salvo o devido respeito e sem sombra de censura para ninguém, a mudança das designações chega a ser hilariante por vezes, pois é bem conhecido o exemplo de em certa vila ter havido uma rua que tinha o seu nome tradicional, que foi substituído pelo de um político local, nome este que cedeu o lugar ao primeiro quando a influência da cor política enfraqueceu.
É o culto exagerado da personalidade, que poderia desaparecer se em cada povoação as ruas fossem designadas por números, segundo determinado esquema.
Haveria por exemplo: praças, largos, avenidas, ruas e becos e assim teríamos:
Praça n.° l, largo n.° 4, avenida n.° 2, rua nº 16 e beco nº 5.
Seria assim tudo mais simples, mais económico, não despertaria cócegas em ninguém para mudar, por exemplo, o número 7 para 9, e seria mais belo e poético porque, no dizer de um grande pensador, o sistema de números, com várias operações e combinações a que se presta, constitui o mais belo edifício arquitectónico que o ho­mem inventou.
 (PÁGINAS 17/18/19/20/21 - do livro "Lançando ao Vento... no Concelho de Abrantes - Caderno do Coronel Valente". O texto é uma cópia do referido livro. 

Demolição Convento da Graça
  
Rossio (exercícios militares)
Convento de S Domingos adaptado a Quartel Infantaria

RAMIRO GUEDES DE CAMPOS DECLAMADO POR JOÃO VILLARET

À ÉPOCA UM DOS DOS MAIORES POETAS ABRANTINOS
NA RÁDIO VILLARET RECITOU A SUA POESIA  
(Sá agora, passados 2 anos dei com um erro que apenas foi detectado por um seguidor atento. Do facto peço desculpa e publico agora a foto do verdadeiro poeta lido por João Villaret.
O comentário do Sr. J. Barreto foi oportuno e lembra-nos o quanto errar é humano. Obrigado Sr. J. Barreto pois foi o único a dar pelo erro o que revela o pouco que os abrantinos conhecem dos seus mais ilustres filhos).