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JOSÉ SEBASTIÃO SERRA DA MOTTA - 1883/1943

PINTAR E ESCREVER ABRANTES
Por José Manuel d’Oliveira Vieira 
“PINTAR E ESCREVER ABRANTES” - três personagens que fizeram parte da cultura abrantina: Mário Cordeiro (I) (já publicado em março 2019), José Paulo Fernandes Júnior, solicitador/dramaturgo/pintor (II) (já publicado em abril 2019) e Dr. José Serra da Mota, advogado/notário/pintor (III) (maio 2019).
III
JOSÉ SEBASTIÃO SERRA DA MOTTA – 1883/1943
Abrantes pouco ou nada conhece da sua obra. No entanto, as suas telas figuram nos Museus de Arte Contemporânea de Lisboa, Bragança, Guimarães, Viseu, Figueira da Foz, Guarda, Teixeira Lopes de Gaia, José Relvas – Patudos e Biblioteca Municipal de Abrantes.
Além dos museus já citados, casas particulares, ex-Colégio de Fátima (desconheço a pintura ou pinturas que ali se encontravam), Montepio Abrantino Soares Mendes e na casa da quinta do Dr. Solano de Abreu existem magnificas obras que bem demonstram o valor deste artista.
No já desaparecido “Café Abadia”, inaugurado no dia 15 de agosto de 1929 (assim chamado por ter sido construído numa antiga capela), figuravam belíssimas pinturas do Dr. José Sebastião Serra da Motta.
Por “CARTAS DUM VELHO ABRANTINO – escritas por David Bruno Soares Moreira em 30-V-1944, ficamos a saber ser José Motta conhecido por alguns amigos na juventude por Zé Telha, “ser um observador esplendido e o seu lápis de moço artista começou a desenhar os perfis das pessoas que perto dele conviviam com seu Pae, diariamente, na Farmacia Mota… Salvo erro a primeira caricatura que fez foi a do Prior de São João, o Padre Alexandrino…”
Jornais nacionais e locais se interessaram e reconheceram o valor artístico que José Motta teve na arte de bem desenhar e pintar.
No Salão Nobre do Montepio Abrantino Soares Mendes (agora fechado sem se saber bem o motivo), podemos ver uma tela de grandes dimensões, que, se não houver outro desfecho para a mais antiga Associação abrantina a mesma seja conservada em lugar que todos os Abrantinos apreciem um dos estilos de pintura de José Motta.

Pintura de José Motta
(Montepio Abrantino Soares Mendes)
Na “Vila Maria Amélia - 1892”, Quinta do Dr. Solano de Abreu, lá encontrei entre outras pinturas quadros de José Motta, representativos da atividade agrícola praticada naquela casa à época. É, pois, no contexto rural que em 1910 o grande artista abrantino, fez a sua primeira exposição de pintura no Sindicato Agrícola de Abrantes, situado na Rua Grande.
Nota: por doação à Igreja poderá este importante espólio ser arrolado e constar como património local?
Pinturas de José Motta
Quinta D. Amélia (Vale de Roubam)
Ainda em 1910, organiza e cria em Abrantes um centro de desenho na antiga Sociedade dos Artistas de Abrantes.
Quase a lembrar banda desenhada, o livro de Solano d’Abreu, que possuo, com dedicatória do autor a sua sogra D. Narcisa Fialho e Silva, “Um Anjo sem Azas – 1907”, tem ilustrações do seu grande amigo José Motta.
 
 
   
 
  
 Ilustrações de José Motta
(Livro, “Um Anjo sem Azas – 1907” de Solano de Abreu)
Dos azulejos da antiga Igreja do Socorro (mais tarde Farmácia Motta Ferraz), José Motta retratou um dos motivos para a casa de Apolinário Marçal com a legenda: SONET VOX TVA INAVRIBUS MEIS VOX ENGIN1 TVA DULCIS (Can.2)2.  A revelação consta no Jornal de Abrantes – Ano 1951. Por saber fica: é “desenho/pintura ou um painel de azulejos”?
1Terá havido falha do Jornal ou José Motta ter escrito/pintado na legenda “ENGIN” em vez de “ENIM”?
2Querendo saber o que foi escrito em Latim no jornal em 1951, recorri ao Doutor Professor Joaquim Candeias da Silva que traduziu e informou ser este, um versículo do belíssimo livro do A.T., Cântico dos Cânticos, capítulo 2, 14, que no original é um pouco maior: “Pomba minha (…) mostra-me a tua face, SOE A TUA VOZ NOS MEUS OUVIDOS, PORQUE A TUA VOZ É DOCE e a tua face graciosa.
No Convento de S. Domingos/1973, realizou-se uma “exposição homenagem” a este grande artista abrantino. Além da BIOGRAFIA de José Motta, o catálogo da exposição nos revela terem sido expostos 77 quadros da sua autoria.
Da grande e memorável “exposição homenagem a José Motta”, realizada no Convento de S. Domingos/1973”, foi o “CIDADÃOS POR ABRANTES” a informar ter a RTP realizado uma reportagem filmada que pode ser vista em “RTP ARQUIVOS – Festas de Abrantes”. Ao colega BLOGUISTA os meus agradecimentos.
Abrantes tem no “No Vale de Rãs” uma artéria a que foi dado o nome de “Rua - Pintor José Sebastião Serra da Mota. Não merecerá José Motta mais que isso?
Ei-lo aqui: homem parco no falar
Com uma alma d’artista…um bom pintor,
Paisagista distinto, não vulgar
“O Povo de Abrantes, 17-X-1916”
(Da publicação: Perfis – 1932 – Justo Paixão)

JOSÉ PAULO FERNANDES JÚNIOR – 1906/1979, SOLICITADOR/DRAMATURGO/PINTOR

PINTAR E ESCREVER ABRANTES

Por José Manuel d’Oliveira Vieira
“PINTAR E ESCREVER ABRANTES” - três personagens que fizeram parte da cultura abrantina: Mário Cordeiro (I) (já publicado em março 2019), José Paulo Fernandes Júnior, solicitador/dramaturgo/pintor (II) (abril 2019) e Dr. José Serra da Mota, advogado/notário/pintor (III) (maio 2019).

(II)
JOSÉ PAULO FERNANDES JÚNIOR – 1906/1979, solicitador/dramaturgo/pintor, é a segunda das três personalidades abrantinas que escreveram e pintaram Abrantes. 
Todas as homenagens que se façam a José Paulo nunca são demais. Como dramaturgo, pintor, ator, músico, foi uma das figuras abrantinas que mais deu à cultura da nossa terra.
No “Brôa”, antiga escola secundária de Abrantes, José Motta, professor de José Paulo, cedo reparou na aptidão que o seu aluno possuía pelo desenho. José Motta na pintura e Diogo Oleiro na amizade foram a chave de todo os “louros” que lhe estavam predestinados. 
O nome de Abrantes como “Cidade Florida” em parte se deve a José Paulo enquanto pintor, ator e autor de operetas apresentadas pelo Orfeão Abrantino.
Ilustração sobre Abrantes - Igreja S. Vicente/Igreja Stª Maria Castelo/Torre Menagem/Misericórdia/Casas Seiscentistas/Igreja S. João
Sem conta estão as exposições das suas obras realizadas na cidade de Abrantes, tais como: ex-Liga dos Amigos de Abrantes (da qual foi sócio fundador), Salão de Festas do Cine Teatro de S. Pedro, na antiga “Papelaria Académica” ou no seu atelier no r/c do  “Montepio Abrantino Soares Mendes”.
Pintura de José Paulo - Ilustra livro "Abrantes 1937" de Henrique Martins de Carvalho
(Arquivo Municipal - Eduardo Campos)
José Paulo - Pintando no seu atelier
José Paulo - Pintando natureza
 
 Na casa de José Paulo - expondo pintura
  Na casa de José Paulo - expondo pintura
 Rua de S. Pedro - Igreja de S. Pedro
(Propriedade - Biblioteca Municipal de Abrantes)
 S. José das Matas - Casa de um familiar - quadro pintado à espátula
(Propriedade de José Vieira)
 Azenha
(Propriedade de António Maria Coelho de Carvalho)
Rio Tejo - Abrantes
Um dos catálogos das muitas exposições realizadas por José Paulo 
As pinturas dos seus quadros apresentavam sempre um cunho de realismo. O quadro “Ramiro – Cauteleiro”, uma das figuras de Abrantes, foi o que mais impressionou o público aquando da sua exposição.
Após o fecho da Liga dos Amigos de Abrantes (L.A.A.), querendo saber onde foi parar a obra de arte de José Paulo o “Ramiro – Cauteleiro”, conhecido pela população Abrantina por “Malinhas”, encontrei a resposta no “NOTICIÁRIO - Boletim da Liga dos Amigos de Abrantes” Nº 294 página 2 de outubro 1983 e no qual foi escrito à data da morte do retratado o seguinte: O quadro a óleo do Ramiro, encontra-se à vista na nossa Sede, tendo-nos sido oferecido pela filha do Pintor Excelentíssima Senhora D. Maria Manuel Paulo Fernandes.
Extinta que foi a Liga dos Amigos de Abrantes, não seria boa ideia o quadro do “Malinhas” ser doado à Biblioteca Municipal de Abrantes para ali ser exposto?
"Ramiro - Cauteleiro"
(O Malinhas)

Uma das muitas exposições de pintura de José Paulo na já extinta “Liga dos Amigos de Abrantes”
Na foto de CVD podemos ver três figuras de Abrantes retratadas por José Paulo: “Ramiro”, “Catita” e “Migães”
Nota: Em Abrantes, num local recentemente visitado encontrei uma das maiores coleções de quadros de José Paulo.
José Paulo (dramaturgo), foi ator e autor de óperas e letras para os musicais do Orfeão Abrantino Pinto Ribeiro. Na memória de muitos abrantinos ficaram algumas atividades artísticas tais como: na criação de Suzete Martins Velez “Palha de Abrantes” teve musica de H.S.S. e letra de José Paulo. Em “Cidade Florida” a musica foi de H.S.S. e a letra de José Paulo. Na opereta em 1 ato “Cantigas d’Amor” foi ensaiador e desempenhou o papel de “Manél d’Avó”. “O Pêcego” – Fox-Trot” teve a interpretação deste multifacetado Abrantino.
O mundo da música também não era desconhecido para o José Paulo. Em 1937 fez parte do conjunto musical “Jazz Abrantino”.
José Paulo ator
 
 1934 - "Cantigas de Amor" - Autores: José Paulo/Rogério do Carmo Pimenta
1937 - José Paulo no grupo musical " Jazz Abrantino"
Ao serviço da comunidade foi vereador efetivo da C.M.A. (1945), presidente da “Comissão Municipal de Higiene” e fez parte da Junta de Freguesia de S. João.
Maria Lucília Moita assim dizia dele: … amou a sua terra… Aprendeu sozinho a manejar os pinceis e as tintas… a ternura pela sua mulher, a companheira que sabia encorajá-lo, levou-o a pôr nas flores todo o seu enlevo e ainda bem…
Nota: D. Guiomar Pombo Fernandes, esposa de José Paulo foi ela também uma artista. Em 1923 bordou a primeira Bandeira da Liga do Combatentes da Grande Guerra de Abrantes. Encontra-se esta Bandeira no Museu da Liga dos Combatentes em Lisboa.
Para ver a História da Bandeira clic no link abaixo indicado:



MÁRIO RUI N. CORDEIRO - PINTOR/POETA/ENCADERNADOR

PINTAR E ESCREVER ABRANTES
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
          “PINTAR E ESCREVER ABRANTES”, vai focar três personagens que fizeram parte da cultura abrantina: Mário Cordeiro (I), José Paulo Fernandes Júnior, solicitador/dramaturgo/pintor (II) e Dr. José Serra da Mota, advogado/notário/pintor (III)
(I)
MÁRIO RUI N. CORDEIRO (1950/2016) – Pintor/Poeta/Encadernador, é o primeiro nome que pretendo homenagear neste pequeno registo – PINTAR E ESCREVER ABRANTES.
            Muito já foi dito sobre o “Eça” de Santa Margarida/Constância que Abrantes adotou.
            A entrada do Mário no serviço militar obrigatório e o que esteve na origem de abandonar a vida castrense com um outro amigo de Abrantes é um assunto que poucos conhecem. Rumo à Bélgica, passou por Leiria onde alguns dias depois a P.I.D.E esteve em casa de um meu familiar.
Deambulando pelas faldas de Bruxelas (Bélgica), Mário Cordeiro bebeu outras culturas e outros hábitos que trouxe para Portugal.
            Sempre que ia a Abrantes, via o Mário, ou o Mário me via, era inevitável conversarmos um pouco, beber um café e sempre que podia lá ia adquirindo um dos seus desenhos ou pinturas.
Nos postais ou cartas que escrevia, lá vinha uma cópia da sua poesia, sempre ilustrados por um dos seus característicos desenhos.
À mesa de um qualquer café, guardanapos de papel eram muitas vezes utilizados para o Mário dar azo à sua inspiração poética.
A arte de desenhar marcando pontos sobre a tela foi única em Abrantes.
A rebeldia para com a sociedade que o não incluía era um manifesto na sua poesia e desenhos.
“COISASD’ABRANTES” não esqueceu o muito que o Mário deu à esfera cultural abrantina.
Mário Cordeiro, POETA/PINTOR, não pode ficar esquecido só porque teve o azar de viver numa sociedade diferente daquela onde em tempos como “exilado” “tinha bebida” “cultura e hábitos”.
Mário viveu momentos difíceis na sua vida. Nos períodos de mais dificuldade víamos o Mário andando por Abrantes a tentar vender os seus quadros e pequenas encadernações. Entre os quadros que comprei ao Mário Cordeiro não posso deixar de referir o realizado a três dimensões com o titulo “Abril/Maio/Flores”.
Desenhos, pinturas, cartas ou pequenos textos (alguns originais, outras cópias do “Contador de Histórias”), que o Mário me enviou não podem ficar no anonimato.
Nas cartas do Mário, havia sempre um lamento. As promessas, o não reconhecimento das suas “Capacidades Intelectuais” era uma constante. A justificar o que escrevia anexava às cartas fotocópias dos seus originais.
Em 2001 envia o original “O Contador de Histórias” a Sua Exª o Presidente da República e recebe deste o respetivo agradecimento. Por outras cartas enviadas à Presidência da Republica, Sua Exª o Presidente da Republica acusa a receção e refere: …. Aproveita-se a oportunidade para desejar as maiores felicidades à eventual recepctividade que as autarquias de Constância e Abrantes possa dar às propostas que entenda por bem apresentar-lhes.
Para memória se regista neste pequeno espaço o pouco do muito que o “EÇA” de Santa Margarida/Constância deu a Abrantes, terra que o viu crescer e morrer. Não terá sido um “Luis Pacheco”, mas morreu como “ele”.
(Postal 1)
(Postal 2)
(Postal 3)
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"Só Promessas" - Carta a José Vieira
((Folha 1)
(Folha 2 f)
(Folha 2 v)
(Folha 3 f)

(Folha 3 v)
(Folha 4 f)

(Folha 4 v)
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Frente e verso de 4 guardanapos de papel escritos à mesa de um café.
(originais propriedade José Vieira)
"O Lago do Cisne"







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Abril/Maio/Flores
Portugueses pelo Mundo - 25 de Abril: terá sido esta a inspiração de Mário Cordeiro?
(Pequeno quadro a três dimensões - propriedade José Vieira)

 
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Carta do "Eça" de Abrantes a José Vieira
(Oferta do Autor – Mário Rui N. Cordeiro – junho 2015)
APRESENTAÇÃO
 Nessa tarde eu estava sentado num banco perigosamente vermelho dum pequeno e monótono jardim, lentamente concedido ao borbulhar calcário duma sumptuosidade marítima, isto é, habitada pelos mapas rituais e eróticos, reavivados pelo constante bater do mar no destino árduo dos navios.
E de olhar ligeiramente preso ás mãos que havia já muitos dias, não guiavam qualquer palavra, pensava em coisas impossíveis de explicar, coisas terríveis, coisas fortemente características de um olhar aéreo, aereamente fixo, mas repleto de uma atenção magnífica, silenciosa, trabalhada durante anos e anos pelo amor e pela experiência.
Nessa tarde em que tudo era para mim o resultado de uma angústia desordenada, enorme e mortal, eu senti nas minhas mãos o bater nostálgico do medo.
Ter medo é uma qualidade dos homens que negoceiam a expressão, pensei, fixando os olhos num rosto imóvel, tentando interpretá-lo até à última feição, até ao movimento irreflectido dos seus lábios habituados.
Talvez a esta hora ela me espere, murmurei, enquanto desviava os olhos do rosto imaginado.
As portas acrescentavam súbitos gestos à religiosidade das casas; casas melancólicas que estão na origem de todas as cidades.
Nada era para mim mais triste que o facto de me saber longe de tudo o que até ali me excitara o desejo de criar; criar a partir do gesto furibundo de olhar as coisas e lhes imprimir um destino mais exacto. E foi quando a noite desceu sobre o colorido das casas e dos jardins que decidi partir.
Alguém, talvez ela, me esperava e assim seria de novo manhã na minha difícil obra, nas minhas mãos a trabalharem as palavras até à loucura dos dias irremediavelmente sós e habituais; dias a moldar o fogo interno das palavras inexoráveis.
O sorriso matinal dela, as flores infantis de um amor vivo e longamente cantado pela voz errante dos séculos habitados pela noite em que pela primeira vez experimentei o fogo intimo das palavras.
É então que uma voz chega, a insolência de uma voz anterior à desumana presença dos mestres, matemáticos e engenheiros, que sobre os milhares de palavras, na sua maioria impalpáveis, exaltam o espantoso olhar do Hall 1200 que ao amanhecer toca o sossego celeste dos olhos minúsculos que governam os templos do mundo.
E de súbito a tragédia domina a cidade cega, a fonte fria, o fogo calmo, os altos muros e caminhar é agora mais que a simples movimentação dos olhos e das pernas.
Um dia será ela a luz que falta, a roda que se constrói ao serão, a idade impossível de parar e tudo será as palavras que usei para falar.
O vento baterá no fogo dedicado de quem regressava para saber e para ser e eu ficarei entusiasmado por ela, a mulher bruscamente amada, a mulher eficaz, lentamente imaginada á noite, sobre as mesas brancas dum café angustiosamente vazio e habitual.
Uma vez vieram junto de mim e disseram: tens de começar.
Ás vezes não vinham e escreviam bilhetes. Dizendo: tem calma, alegra-te, parte, regressa e outras coisas assim.
Eu duvidava de tudo isto e saia, dizendo: - vou "beber cerveja, já volto.
Quando voltava era tarde, eles já não estavam e eu podia, por fim, aproximar-me um pouco mais de mim mesmo.
Pensava: - para que serve tudo isto?
Um dia ela veio e eu disse-lhe: - chegaste.
Trazia uma voz essencial, um nome e uma idade e disse-me: - sim, cheguei.
- Vamos amar tudo isto. Apetece-te café?
E fiz café, enquanto perguntava: - onde andaste todo este tempo? Que fizeste, em que pensaste?
E ela espalhava-se em todas as direcções, invadia todo o quarto, o pequeno armário do fundo, os livros e os papeis.
E eu disse-lhe: - expandes-te muito.
Ás vezes deambulávamos pela neve que invadira toda a cidade.
- É uma cidade lenta, esta - dizia-me.
      - Achas que podemos salvar tudo isto, tornar possível estas
palavras, estes gestos? - perguntei-lhe.
E ela disse: - não sei, não tenho a certeza.  
Há uma falta de certeza terrível neste mundo - pensei.
Imaginemos um homem que pensa em atravessar o mundo. Existe nele qualquer coisa a que poderíamos dar o nome de angústia. Uma angústia lenta como a treva, o nevoeiro, as coisas espessas.
Às vezes esse homem está na montanha, na colina mais alta. Tem os cabelos enormes e não diz nada, não fala, não pergunta. Imagina a sua própria casa num lugar longínquo.
Então chega o actor e o homem diz-lhe: li livros, conheço todos os mares e o mundo. Que fazer de tudo isto?
Um homem pensa durante muitos anos e por fim descobre que é um homem pensativo e diz:
      -sou um homem pensativo. Penso.
-Isso é simplesmente terrível, diz o actor.
Sempre a vida foi uma questão de preços; ardem as praças, acrescentam-se novas cidades às paisagens.
Imaginem um vagabundo encharcado de vinho gritando:
-estou desempregado, não tenho profissão e sou católico. Sempre colaborei em todas as revoluções e golpes-de-estado, mas nunca roubei nada a ninguém, nem me passou pela cabeça tais atitudes.
O mercador de espelhos passava apregoando as qualidades profundas do inocente, do seu raciocínio e das noites de insónia.
Os comerciantes haviam acabado de pôr os seus mais atraentes produtos à porta e a multidão passava cansada.
Nada mais me restava da antiga recordação, nem dos contornos de algum rosto.
Talvez por isso me afastei dali sem perspectivas. O passado era um tiro na memória, efémero.
Às vezes um simples olhar demora-nos um pouco mais na solidão e o vento traz-nos o cheiro dum mar qualquer.
Assim foi. Eu contemplava em voz baixa rudes perfis e não pensava sequer em diálogos. Acabei por cansar-me e atacado peio aborrecimento que toda a observação demorada nos produz, escrevi diálogos admiráveis e jocosas cartas a tipos corajosos.
Uma forma de aproveitar a paz de algumas belas palavras, meia dúzia de canções na rádio e muito desprezo.
As formas pessoais sempre nos dividiram; a maior parte dos advérbios, alguns adjectivos, quase todas as palavras não são mais que pequenas fidelidades atmosféricas dum lugar injustificado.
Escrever é um modo de acreditar, dirá alguém. É um modo de tornar possível uma paisagem.
É assim: vamos pela terra fora tentando respirar. Alteramos assim um discurso, uma inclinação para o que é extenso.
-É aqui, dizemos. E na verdade era aí.
Isto faz sentido, tem importância, percebe-se.
Ás vezes é impossível estar ausente e tudo o que se faz comporta essa forma perigosa de ser. Olhamos em volta, falando do que é nosso. Tentamos criar a partir de nós próprios um novo discurso, uma coisa perigosa, violenta.
-Que se há-de fazer? - perguntamos.
Então dicidimos escrever, como se tivéssemos repentinamente emudecido. Esperar será pela primeira vez uma arte.
Vêm depois os inevitáveis impulsos e esquecem-se as férias, pedem-se desculpas.
Assim se inicia a representação.
Um novo modo de ser triste determina a nossa voz. Anos depois, aos nossos próprios gritos, suceder-se-ão as supremas técnicas para os ouvir.
Então, como se ousássemos sacrificar um doce destino, o rumo completo de uma vida, murmuramos as mais lúcidas palavras que conhecemos e em pleno inverno, envoltos pela crueldade duma cidade estrangeira, choramos.
Pela madrugada, saímos para a rua a falar da ternura, com uma poderosa expressão e violência.
Um mapa é uma pequena ironia dum comedor de fruta esforçando-se por completar a arquitectura da imagem.
Ali está diante dum espelho verde, numa cadeira, defronte duma mesa, com uma garrafa vazia. Tudo isto é múltiplo.
Uma estrela é um erro que nos transforma em roseiras.
Um comedor coloca estampas nos espelhos de águas selvagens e os assistentes levantam-se, absorvem-se na loucura do aplauso. A praça chama-se mês de março e as laranjeiras esvoaçam, as árvores.
O comedor de fruta ergue o braço, sobe pela própria voz e inventa a Idade Média, que é um gabinete sem dicionários.
Ninguém se discute quando se dança selvaticamente, porque lhe foram dados os nomes: Portugal, seda delirante, mulheres morrendo, instrumentadas. Abraço o mapa com uma confusa firmeza e impaciência. Nada em mim ressurgirá se me encher de eternidade, talvez até morra, preso, assassinado numa prisão didáctica.
Ao lado do comedor de fruta desenho o tocador de corneta.
Em pleno centro da violência diária desenho o horizonte, a velha miséria do escorbuto roendo os navios.
Tropeço nos polícias assassinados com toda a paciência. O fumo do teu cigarro. Muita gente reza e aclama, de novo, os carros celulares.
Desço o boulevard Saint-Germain. O poema é um editor magnético que ilustra toda a cidade e dá a volta ao mundo. Mesmo assim todos os remédios não chegam para se poder afirmar o que as máquinas poderiam fazer.
O mundo é tão vasto e veloz até que acaba.
Do livro em preparação
“O Contador de Histórias”
Mário Rui N. Cordeiro
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Pinturas e desenhos que se encontravam armazenadas na Rua da Videira pertencentes à Ex Liga dos Amigos de Abrantes.
 
 
 
Rua da Videira
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Desenhos (cópias) de Mário Cordeiro enviados a José Vieira
Folha Abrantina
Convento de S. Domingos (Mário retratando-se)
Castelo de Abrantes - Relógio de Sol no local onde se encontrava antes da recuperação do espaço. No local onde se encontra atualmente continua a faltar o "gnomo"
Convento de S. Domingos
Outeiro de S. Pedro
s/nome

s/nome
Jardim do Castelo - antigo pombal que também quiosque entretanto demolido
Santarém - fonte
Igreja de Alferrarede
 
Foto inédita de Mário Cordeiro (negativo CVD (f) 145) 

Crisântemos
(Propriedade José Vieira)
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Carta a José Vieira
"JOGADA DE MAU GOSTO"





No local está hoje a C.G.D.
(Propriedade José Vieira)
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Carta a José Vieira

Fonte de São Caetano
(Propriedade José Vieira)
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Eça - Desenho Mário Cordeiro (poderá ser original)
Cópia de texto a José Vieira
"Le Monsieur Eça"




Castelo de Abrantes
(Propriedade José Vieira)
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Carta a José Vieira
"Grande Enciclopédia Portuguesa Brasileira"
Pai de Mário Cordeiro - Encadernador (negativo CVD (f) 098)