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ABRANTES - NAQUELE TEMPO COMO AGORA - ASSIM FUNCIONAVAM AS CUNHAS

UMA CUNHA EM 1810
            Aquando da sua nomeação como Governador da Praça de Abrantes, Janeiro de 1809, o Engenheiro Militar, Manuel de Sousa Ramos, mais conhecido nesta, por ser o arquitecto das Pontes Militares do Rio Tejo, Zêzere e fortificação da Praça de Abrantes, achou por bem solicitar a D. Miguel Pereira Forjaz um emprego para o seu sobrinho Domingos Vicente Antunes de Souza Ramos, que sabia escrever bem o Português e Francês, para se entender com os Officiaes Inglezes.
            Passados que são 207 anos, vejamos como funcionavam as cunhas nesse tempo:
Illº. e Ex. Sr. D. Miguel Pereira Forjaz
O Portador desta Domingos Vicente Antunes de Souza Ramos he hum sobrinho meu, que, tendo completado o curso da Aula do Comercio, se habilitou para entrar no Erario, o que não efectuou por cauza da entrada  dos Francezes; e como se achasse desempregado quando fui nomeado Governador desta Praça em Janeiro do anno próximo passado, e eu necessitasse de quem me escrevesse, tanto em Portuguez, como em Francez para me poder entender com os Officcaes Inglezes, pois que me achava encarregado de outras missões, alem do Governo, a que não podia dar o expediente necessário sem hum Secretario, o chamei, e o empreguei como tal Secretario, cujo lugar exerceu todos os onze mezes do meu Governo, e depois no arranjamento de papeis até agora, sem que disto percebesse ordenado algum, nem também o pertende, e só o que requer he ser acomodado no Erario, ou na Tezouraria das Tropas, ou na Contadoria do Terreiro, ou na da Mizericordia, ou em qualquer outra repartição de Fazenda, para que se aplicou, sendo esta feita pela sua propria letra, para que V. Exª. a veja; espero que este pequeno serviço, que elle fez, junto com os que eu tenho feito mereção a comtemplação de V. Exª., para o fazer entrar em alguma daquelas repartições, de que eu ficari sumamente agradecido.
Deos Guarde a V. Exª. (!!) Abrantes 28 de Fevereiro de 1810
De V. Exª
Umilde Subito
Manuel de Souza Ramos

(AHM-DIV-1-14-096-080m0007)

ABRANTES - IGREJA DE S. VICENTE

IGREJA DE S. VICENTE
Igreja de S. Vicente é um dos principais templos de Abrantes. "A sua fundação primitiva é atribuída aos Godos. Chamou-se Nossa Senhora da Conceição até 1150, passando a São Vicente pelo facto do 1.º alcaide mor de Abrantes ter obtido de D. Afonso Henriques, um dente de São Vicente Mártir, que permanece como relíquia da dita Igreja". http://digitarq.adstr.arquivos.pt/details?id=999654






















JORNAL DE ABRANTES 14OUT1928

JORNAL DE ABRANTES Nº 2364 - 5MAI1946


ABRANTES E O 31 DE JANEIRO DE 1891

“31 DE JANEIRO DE 1891”
NOME DE UMA RUA EM ALFERRAREDE
José Manuel d’Oliveira Vieira
O nome dado à “Rua 31 de Janeiro de 1891”, no Bairro Marquesa do Faial, paredes-meias com a ex-Junta de Freguesia, faz parte da história de Portugal.
O 31 de Janeiro de 1891, mais não foi do que uma revolta de militares (sargentos), cujos antecedentes tiveram origem no despertar da consciência nacional, para o conflito anglo-portugês. Isto é: no principio do reinado de D. Carlos I, o governo inglês apresentou ao governo português um “ultimatum”(1) em 11 de Janeiro de 1890 por causa dos limites territoriais na África oriental quando numa altura em que se referia com alguma insistência a possibilidade de um conflito com a Inglaterra a propósito das pretensões desta sobre os territórios do Nyassa (Moçambique), onde algumas expedições portuguesas de carácter cientifico operavam ao tempo.
A Ordem do Exército de 17 de Janeiro de 1891(2) que acicatou o espírito de rebelião dos sargentos, não sendo causa única da revolta a que se juntaram oficiais, Guarda Fiscal, banqueiros, jornalistas, estudantes e cidadãos, o movimento militar definidamente político, patriótico e de salvação nacional, afirmou-se pelos princípios republicanos. 
Apesar de um plano organizativo, trabalho sensato, largueza de vistas e métodos, tudo se alterou: a imposição dos sargentos para saírem a todo o custo no dia 31, foi delatada.
O desfecho foi: o degredo, deportação e a emigração para Espanha, França e colónias. Só para o Brasil, no paquete “O Elba” embarcaram 300 revolucionários e no “Tagus” mais 400.
Na época, um repórter de um periódico transcreveu o seguinte: “aqui vamos todos; meus filhos, meus netos. Tudo vendemos em que podessemos  apurar algum dinheiro. Fica a casa, com a chave na fechadura. O governo que a venda, se quizer”.
“Às 9 da manhã de 31 de Janeiro de 1891, já não se ouvia um tiro: a revolução estava sufocada; a monarquia podia viver tranquila” (Seara Nova FEV73).
Sem sucesso, a Revolta do Porto, no dia 31 de Janeiro de 1891, teve o mérito de abrir caminho à implantação da Republica no dia 5 de Outubro de 1910, com a constituição de um governo provisório sob a presidência do Dr Teófilo Braga.
Esta é a história que deu o nome a uma rua do Bairro Marquesa do Faial em Alferrarede e que uma comissão de sargentos achou por bem propor à Junta de Freguesia para perpetuar a memória de todos aqueles que deram a vida pela REPÚBLICA.
(1)  Sobre o Ultimatum, ver Tratado de 1981, por José de Almada – 1947, carta geográfica dos domínios portugueses na  África Oriental (1849), mapa esquemático mostrando a fronteira entre as possessões do governo português e de África do Sul (29JUL 1869), mapa da Bacia Convencional do Congo,  Zambézia e países adjacentes (1867) e mapa das possessões portuguesas da África Meridional, do Marquês de Sá da Bandeira de 1867, que, pelas suas dimensões não são aqui publicadas..
(2)     História da Revolta do Porto depoimento de dois cúmplices: João Chagas e ex-Tenente Coelho.

O que restou do "Manifesto Revolucionário" 

Alferrarede - Rua 31 de Janeiro de 1891
Comunicado antes da "Revolução ser delatada"  
Abrantes também viveu o espírito revolucionário
NO DIA 31 DE JANEIRO - 2017 
SARGENTOS COMEMORAM NO "RESTAURANTE LAREIRA - CHAINÇA"
 O DIA 31 DE JANEIRO DE 1891

COMUNIDADE JUDAICA DE ABRANTES

ABRANTES
NA PISTA DA COMUNIDADE JUDAICA
1383/1493
                  
Por José Manuel d’Oliveira Vieira

              O primeiro registo da presença de judeus em Abrantes data de 15-1-1383. No livro de Maria José Pimenta Tavares Ferro, “Os Judeus em Portugal no século XV, Volume II”, no “quadro nº 1 – Levantamento Populacional – Abrantes”, páginas 1/2/3/391, podemos ver, ter existido de 1383 a 1493 uma significativa comunidade judaica nesta cidade. Entre 1440/1442 estavam registados 27 nomes, que, a terem família constituída, nos permite calcular a população de judeus em Abrantes na década de quarenta do século XV em cerca de 54 a 70 indivíduos. No “quadro nº 2 – Profissões/Cargo”, vê-se quais e quantos judeus exerciam atividades ou cargos em Abrantes: Físicos (1), cirurgiões (4), mercadores (2), alfaiates (4), tecelões (4), sapateiros (7), ferreiros (4), carniceiros (1), rabi (1) 1.
            No Arquivo Municipal Eduardo Campos, a mais antiga referência documental sobre a existência de judeus em Abrantes data de 1386. Nesse documento é referido ter sido lavrado um testamento em 25 de Janeiro desse ano, onde figura um Domingues Eanes, de alcunha “o mata judeus2.
                Não sendo conhecido o número exacto de judeus em Abrantes e os registos da presença destes apenas ser conhecida a partir de 1383 a 1460 (inferior a uma centúria), o que encontramos no “Levantamento Populacional” do livro de Maria José Pimenta Ferro Tavares 3 e na memória histórica da notável vila de Abrantes4, embora relevante, pouco ou nada nos diz do local ou locais de fixação dos Judeus em Abrantes desde a década de 80 do século XIV à década de 60 do século XV.
            Em 15-1-1383, Bemjamim Sapaio (“Bulhamy Çapaio”) é o primeiro judeu que aparece com morada em Abrantes. Rendeiro dos direitos reais em Abrantes e seu termo - direitos arrendados: sisas gerais e do vinho, pela quantia anual de 2.300 libras5.  
            Habitando o espaço físico cristão, os judeus, quando em número superior a dez, criam a sua própria comunidade. Esta é vulgarmente designada por comuna ou judiaria”6.
            Consoante a sua importância e sobretudo a densidade populacional, na maioria dos casos, as comunas (agrupamento de muçulmanos ou judeus obrigados a morar em bairros especiais), possuíam apenas uma judiaria. No livro 5 da Chancelaria de D. João I, f. 73 e livro 1 da Chancelaria de D. Afonso V, f. 26, Henrique da Gama Barros7 encontrou referências à comuna de Abrantes.
            O termo “judiaria” para além de designar um ou mais arruamentos habitados maioritariamente por indivíduos judeus podia ainda ser usado para significar uma área específica de um bairro hebreu.
            Associado à população judaica, são conhecidos dois lugares em Abrantes: Rua Nova, nome pela qual ainda hoje é conhecida: em zona de despejos, quintais e casas arruinadas junto à porta e muralhas do Castelo e Celeiro de Abrantes (lugar que provavelmente os cristãos sentiam repugnância em habitar), próxima de um arruamento principal como era a Rua Grande e tendo como vizinhança templos cristãos (a sul a Igreja de S. Pedro-o-Velho e a norte a Igreja de S. Vicente), encontra-se a antiga e atual Rua Nova8, (judiaria ou comuna da “Villa” de Abrantes). Sobre o topónimo Rua Nova, não esqueçamos o que nos diz a historiadora Herminia Vasconcelos Vilar no seu livro Abrantes Medieval – Séculos XIV – XV, a pg. 26: Rua Nova, que apenas se menciona pela primeira vez em 15029, parece indicar a existência dum processo de transformação da antiga rua dos judeus na citada Rua Nova, após a expulsão daqueles.
  
Rua Nova 
O segundo lugar, cujo nome só por si atesta a presença de uma comunidade hebraica em Abrantes é o Valle de Judêo”, provavelmente o primeiro local de fixação dos judeus em Abrantes!

            Incompreensivelmente, o percurso que nos conduz à Porta do Vale dos Judeus está transformado em lixeira e com silvas. Os antigos e altos muros com a história deste itinerário encontram-se destruídos e outros foram substituídos por muros de suporte a novas construções. O que resta de uma fonte (nascente) à qual os mais antigos chamavam de “Fontinha ou Passarinhos10 (a escassos metros da Porta do Vale dos Judeus) exala um cheiro nauseabundo devido a uma fossa ai existente. Na continuação do estreito caminho, uns metros mais à frente, deparamo-nos com o local da Porta e o Vale dos Judeus. No inicio do Vale dos Judeus é possível ver um antigo poço do qual divergem várias minas. Nas várias plantas da antiga “Praça de Abrantes” lá se encontra a “Porta do Vale dos Judeus” e uma área específica, cujo nome aparece como “Obra de Valle de Judêu”
Caminho de acesso “Porta e Vale dos Judeus”
            Se atendermos que as comunas ficavam próximo das áreas mais dinâmicas do núcleo urbano e das muralhas, de modo a que a disposição do relevo auxiliasse o processo de encerramento, sempre desejado pelos vizinhos cristãos e os cemitérios ocupavam um outro espaço ao qual, de acordo com a tradição mosaica se afastava das habitações, poderá a Obra e Porta do Vale de Judeus, espaço afastado da Rua Nova, mas ainda dentro da linha de defesa de Abrantes, ter sido um cemitério ou a primeira judiaria de Abrantes?
Vale dos Judeus
Vista - Vale dos Judeus
            Nunca antes referenciado como local de judeus, encontra-se o antigo Beco da Gafaria. Situava-se este lugar junto à entrada principal do Quartel de Artilharia, frente à entrada principal do Jardim do Castelo, que antes de ser demolido se denominava “Beco das Barracas do Castelo11. Atualmente é o início da Rua D. Francisco de Almeida (Parque Radical). Paredes meias com a Rua Nova (sul), apenas separados por um “quinchoso”=quintal pequeno junto a uma habitação - do latim conclausu - “lugar fechado”, o antigo Beco da Gafaria, poderá ter sido um dos prováveis locais “de ensino religioso”, “albergaria” ou “hospital de Judeus”. No Capitulo VI – Assistência, Culto e Ensino, pg. 351, “Os Judeus em Portugal no século XV”, Maria José Pimenta Ferro Tavares, escreve: Albergarias, hospitais e gafarias erguem-se nestas (comunas) para receberem pobres e doentes, pertencentes ao credo mosaico (ver foto: Beco da "GAFARIA").
            Para o “ensino” e “culto” estava o “rabi” “David Filhiho” (Davi Filhiho), já que este pertencia à comuna de Abrantes em 144212.

Beco da "GAFARIA"
Negativo de vidro propriedade do autor
            A comunidade judaica de Abrantes, tal como todas as outras foi pesadamente tributada. Com privilégios reais apenas são conhecidos dois casos: o “físico do prior do hospital” e um dos quatro “cirurgiões” da comunidade.
            Não esquecendo a contribuição dos judeus de Abrantes para expedições marítimas, Maria José Pimenta Ferro Tavares, no seu livro OS JUDEUS EM PORTUGAL NO SÉCULO XV – Volume II, revela-nos o que sabe sobre a comunidade judaica de Abrantes nos seguintes capítulos: Levantamento populacional; profissões, rendeiros judeus e seus parceiros; doação dos direitos reais das comunas do reino; rendimento das comunas de judeus à data da expulsão; valor das tenças concedidas por D. Manuel em pagamento dos direitos das comunas e criminalidade. Sobre criminalidade dos judeus em Abrantes apenas é conhecido um caso devido a Abraão d’Abay (20/3/1486), por requestar uma rapariga cristã da corte. Conduzido à cadeia Abraão d’Abay fugiu da prisão e refugiou-se em Castela.


            Embora haja algumas referências documentais sobre os judeus em Abrantes, o mesmo não acontece com registos arqueológicos/históricos. ABRANTES – NA PISTA DA COMUNIDADE JUDAICA 1383/1493 não faz nem pretende fazer qualquer tipo de investigação. A finalidade deste pequeno artigo é apenas e tão só levantar a questão sobre os prováveis locais de fixação dos judeus em Abrantes, lembrar um povo que fez parte da história local e quem sabe, após um exaustivo estudo arqueológica/histórica, essa mesma história possa vir a integrar o roteiro da “Rede de Judiarias de Portugal”, constituída em Março de 2011.

      a) “Obra do Valle do Judêo”; b) “Porta do Valle do Judêo
    c) “Valle do Judêo”; d) “Rua Nova”; e) “Beco da Gafaria”   

BIBLIOGRAFIA
1Os Judeus em Portugal no século XV, Volume II”, “quadro nº 2 – Profissões.
2AMEC/ISJ/F003/cx. 1/doc. 10.
3Maria José Pimenta Ferro Tavares, Os Judeus em Portugal no século XV, Volume II, págs. 1/2/3.
4Manuel António Mourato/João Valentim de Fonseca Mota - 3ª edição revista – Introdução, organização e notas críticas de Eduardo Campos, páginas 150/151/152.
5Maria José PimentaTavares – Os Judeus em Portugal no Século XIV, pg. 166.
6 Maria José Pimenta Ferro Tavares, Os Judeus em Portugal no século XIV, I. A.C.., Lisboa 1970, p. 23.         
7Judeus e Mouros em Portugal em tempos passados.
8Passou a chamar-se “Rua Nova” quando a judiaria se limitava a uma só artéria. Registam-se ruas Novas, por exemplo, em Ponte de Lima – cf. Amélia Aguiar Andrade, ob. cit.,16 – em Tomar, Abrantes e Torres Novas – cf. Manuel Sílvio Conde, Uma paisagem humanizada. O Médio Tejo nos finais da Idade Média, Cascais, 2000, vol. II, 373.
9AMEC, S. Vicente, Caixa 2 – nº 66.
10Vd. Art. de José Vieira no Jornal de Alferrarede Nº 250 Agosto 2006, sob o titulo Fontes e Lavadouros de Abrantes.
11Pg. 82 Toponímia Abrantina – Eduardo Campos – 1989.
12A.N.T.T., Chancelaria de D. Afonso V, liv.20,fls 33vº-34
Cap. Artur Elias da Costa
(1894-1956)

        Artur Elias da Costa fez carreira militar no Exército Português, entre 1916 a 1946, atingindo o posto de capitão em 1931. Foi condecorado com a Ordem Militar de Aviz e Medalha Militar de Prata da Classe de Comportamento Exemplar. Artur Elias da Costa nasceu no dia 10 de março de 1894 em S. Martinho da Covilhã, numa família de estirpe puramente judaica. Como escritor, ele publicou “A Covilhã no Trabalho” (1928), “Os Fundamentos da Ética” (1932) e “O Espirito da Matemática” (1934). Seu trabalho maior foi o primeiro título, presente nas melhores bibliografias sobre Portugal e que também lhe trouxe maiores dissabores, pois ao ser publicado, falando da influência cristã-nova na cidade, tema ainda considerado tabu, sofreu perseguições que o obrigaram a mudar para Abrantes
       Apesar de ser coetâneo do capitão Barras Basto e da “Obra do Resgate”, não se filiou à Sinagoga Kadoorie Mekor Haim (Porto), preferindo praticar a religião familiarmente. Faleceu em 11 de dezembro de 1956.

      Militar de atividades múltiplas, o Capitão Artur Elias da Costa, além de escritor e ter colaborado para Monografia do Concelho de Abrantes, com frequência escrevia para a imprensa abrantina. 

ABRANTES - ÚLTIMA FEIRA NA PRAÇA DA REPÚBLICA

Hoje apresento duas fotos (negativos de acetato) onde podemos ver as "barracas" e um  "poço da morte" da última feira que teve lugar na Praça da República - Abrantes.
O meu endereço electrónico e as letras que sobrepõem as fotos deve-se ao facto de muitas das imagens que publico serem copiadas sem o devido crédito. Os visitantes que as pretenderem devem solicitá-las ao proprietário dos negativos, autor deste blog.  
Nota: Em 2017 publicarei outras deste e outros espaços públicos. que possuo em arquivo nunca antes publicadas. 


ABRANTES E O DIA DO ARMISTÍCIO - 11NOV1918

AOS HERÓIS DA GRANDE GUERRA
11 DE NOVEMBRO DE 1918
Por José Manuel d'Oliveira Vieira
             Após o final da I Grande Guerra (11h00 do 11º dia do 11º mês de 1918), alguns anos antes da construção do Monumento aos Mortos da Grande Guerra que se encontra na Praça da República em Abrantes (4 de Junho 1940), já a população, ex-combatentes, gaseados, estropiados, viúvas, órfãos e militares da praça de Abrantes se reuniam neste local, virados no sentido do Mosteiro da Batalha, para celebrar o Dia do Armistício.
            Por mais testemunhos e pesquisas que haja sobre guerras, nunca a história será completa. Horrores, cobardias, actos relevantes e outros ficarão para sempre no anonimato.
            No dia 7 de Setembro de 1928, em Alferrarede, Emílio Salgueiro, preparou uma pequena brochura dedicada “AOS HEROES DA GRANDE GUERRA” (a). Neste pequeno livro de bolso, Emílio Salgueiro relata a carta que um militar do C.E.P. (Corpo Expedicionário Português), teria escrito nas trincheiras a sua esposa Mariasinha e já prisioneira dos alemães, gravemente ferido, teria completado a mesma.
            Essa carta chegou a Mariasinha pela mão de Noéme, Irmã de Caridade, uma retaguarda de guerra por vezes ignorada, mas conforto de quem dela mais necessita:
            Minha querida Mariasinha:
            São duas horas da madrugada ao co­meçar esta carta. De dia não te pude escre­ver, pois andei em roda viva a fazer os últi­mos preparativos para a retirada de amanhã, por ter acabado o nosso tempo de trincheira.
Quasi um ano sempre aqui metido!... Parece-me que desta vez é que vamos re­gressar a Portugal, pelo menos é o que diz toda a gente. Que saudades, querida Maria­sinha!... Desde que te deixei, nunca um só dia se passou que a tua imagem doce, perfumada e simples como as violetas do nosso jardim, não fosse a companheira per­sistente dos meus sonhos, quer estivesse de sentinela alerta na Terra de Ninguém, quer fosse dormindo nos buracos da trincheira. Nunca me abandonaste, querido Amor!... Foste para mim o eflúvio maravilhoso que dava calor e vida ao meu corpo remolhado pelas cacimbas da manhã, que me insuflava coragem para acometer o inimigo, que me embalava na terra lamacenta que servia de tarimba, docemente, docemente, como se eu fora uma creança pequenina.
            Cada carta tua, distribuída quasi sem­pre ao cair da tarde, quando as almas mais se deprimem contemplando o Sol que se esconde, era para mim uma alegria sem par, uma Aleluia Divina, que me fazia esquecer todos os sofrimentos da véspera. Se tu pu­desses saber, querida Amiga, como sofre na Guerra um coração que ama...!? E' a du­vida que nos rala; é a ausência que nos tor­tura. Sabes lá!... Olha que já perdi o con­to das orações que meus lábios descrentes teem balbuciado, a agradecer a Deus o ter ele permitido que a minha Mascotte se não esquecesse do seu André...
            Mas, emfim, deixemo-nos de tristezas. Dizem-me que sempre é certo terminar ago­ra o nosso martírio de serviço. Talvez assim seja. Não ha mal que sempre dure...
            Entretanto, embora verdade, nunca acreditei que conseguisse voltar vivo á nossa ca­sinha tão amada. Has-de lembrar-te de mui­ta vez eu dizer o meu pressentimento, de que os beijos que te dava seriam os últimos da minha boca. E que dias antes da partida, passávamos horas seguidas, um ao pé do outro, fitando-nos mutuamente, sem palavra dizer, corações alanceados de tristeza, de pe­na e de dor. Eram os meus olhos negros que te confessavam esse negro presságio da morte; e parece-me que tu bem os compreen­dias, pois de repente uma onda de ternura te tomava o corpo, e vinhas abraçar-me com febre, orvalhando o meu rosto com as tuas lagrimas de mulher que ama e muito sofre. Mas o Destino havia ordenado que eu vivesse. De facto, julgo que ambos nos en­ganámos. A partida está marcada para ama­nhã, 9 de Abril, e penso que até lá não ha­verá nenhum contratempo. A noite está socegada, e tão quieta, que me faz lembrar os serões que passávamos ao luar, contando as estrelas e ouvindo as desfolhadas que ecoa­vam ao longe, no vale de Abrançalha!... Nem parece mesmo que a 100 metros de distância, existem alguns milhares de homens emboscados, prontos a matarem o próximo na primeira oportunidade.
            Sinto a impressão de que todos estamos cançados desta guerra infernal. Oxalá que ela amanhã terminasse num grande abraço de irmãos, entre amigos e inimigos, e que as pombas da Paz viessem de vez, e para todo o sempre, pousar nos campos de batalha.
            Meu amor: vou agora dormir um pouco para... sonhar mais uma vez contigo. Ma petite hirondelle, não te esqueças de vir, como nas outras noites, matar-me as sauda­des desse lindo Portugal e contar-me as no­vidades do nosso ninho amado. Sim?
            Vou interromper agora a carta, para a recomeçar amanhã e te confirmar que conse­gui chegar á Base são e salvo, pela Graça Divina do Senhor.
            E olha que a interrupção é na altura precisa, pois acabo de receber um telefone­ma do Batalhão, perguntando que novidades ha. Parece que rebentaram meia dúzia de granadas de 15, no sector da esquerda. Sem­pre ha gente muito assustadiça... E' pelo menos uma noite transtornada. Entretanto, a verdade é que o bombardeamento parece in­tensificar-se. São talvez os alemães que nos querem apresentar as suas despedidas... Isto, afinal, parece sério, pois ouço tocar a si­neta de gaz-alarme. Bem, até logo. Resa por mim. Oxalá que a minha alegria de ha pou­co não tivesse sido extemporânea...
……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………
            Vou acabar a carta, como te prometi.
            Estou prisioneiro e ferido gravemente, no Hospital de Lille. Julgo que me querem cortar as pernas, esfaceladas por um mortei­ro. Com certeza morrerei na operação, pois a terrível gangrena é já insuperável. Nem sei como posso escrever, deitado, sofrendo dores horriveis...
            E' a tua imagem querida que me segu­ra a cabeça e dá firmeza á minha mão para poder garatujar estas palavras. Sempre te amei muito; mas é neste momento supremo, ás portas da Eternidade, que bem avalio a força da nossa amizade, que nossos corações prendeu e uniu para toda a vida. E' ela que me ajuda a bem morrer; que me dulcifica os sofrimentos; que me faz sorrir, ao mesmo tempo que os olhos vertem lagrimas de dor...
            Cuida sempre da nossa casinha, meu Amor. E nunca esqueças de todos os dias regar a roseira branca que envolve a janela do nosso quarto, donde eu costumava tirar as flores com que de manhã, ao nascer do Sol, engrinaldava os teus cabelos negros... Adeus, Mariasinha... Pede a Deus que no Céu proteja a minha alma pecadora; e que na Terra dê Felicidade a ti e á pobre Irmã de Caridade que me serve de enfermeira, tão boa e caridosa, que tenho a sua promessa de fazer com que esta carta chegue ás tuas mãos.
Adeus... A cama vai a rodar para a sala das operações...
André
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            Madame:
            Votre mari est deja parti pour le Ciei. Il avait, pour vous, madame, un grand amour, aussi grand, aussi grand, comme la passion que j'ai senti pour mon Dieu !...
            Dans les priéres de mon coeur, je n'oublierai pas le capitaine André, gentilhomme sans peur et sans reproche, mort en défense de ma Patrie.
            Que le Bon Dieu puisse lui donner dans le Ciel, le Bonheur qu'il a merité par sa vie de sacrifice. Souffrez avec résignation, Madame. Je comprend bien votre douleur. Je suis aussi une veuve de la guerre...
Noéme - Soeur de Charité.
Croix Rouge, Pavillon n. 3 - Lille.
TRADUÇÃO
            Madame:
            O vosso marido já partiu para o céu. Ele tinha, por vós, madame, um grande amor, tão grande, tão grande, como a paixão que sinto pelo meu Deus!...
            Do fundo do meu coração, eu não esquecerei o capitão André, gentil-homem sem medo nem censura, que morreu ao defender a minha Pátria.
            Que o bom Deus possa dar-lhe no Céu, a Alegria que ele merece pela sua vida de sacrifício.
            Sofre de resignação, madame. Eu compreendo bem a sua dor. Eu também sou uma viúva da guerra…
            Noéme – Irmã da Caridade
            Cruz Vermelha, Pavilhão n. 3 – Lille

(a)Por Emílio Salgueiro – Edição da Sub-Agência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra em Abrantes – 1928 Minerva Ldª Abrantes.
Fotos: I Guerra Mundial – Colecção Garcel
Requinta: Museu Oferendas Soldado Desconhecido – Mosteiro da Batalha
Tradução da carta: Marta Heitor
Brochura de Emílio Salgueiro

Portugal (Montalvo) - Preparação para entrar na I GG
França - Portugal na linha da frente
(Por contar fica a história das enfermeiras ao serviço de Portugal na I GG)

NOTA: Estas e outras fotos (mais de mil), bem como a "História da Sub-Agência da Liga do Combatentes da Grande Guerra de Abrantes", foram, no ano de 2005, entregues na Biblioteca Municipal António Boto, oferta do autor José Manuel d'Oliveira Vieira, para que a História dos Combatentes de Abrantes possa ser continuada.