Translate

1º RAID AÉREO ÀS COLÓNIAS PORTUGUESAS (1928)

“CELESTINO PAES DE RAMOS”
INSIGNE FILHO DE ABRANTES
 1º RAID AÉREO ÀS COLÓNIAS PORTUGUESAS (1928)
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo do autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 296 Junho 2010
“Em outra qualquer nação seriam recebidos como heróis; na nossa terra passaram quási despercebido no meio da multidão” – FERREIRA, Pedro Manuel, Dez2003 (b)

             Com a chegada dos primeiros aviões a Portugal (1912) e a criação da Aviação Militar, surgiram os pioneiros dos “Raids” de longa distância.
            Depois de Sacadura Cabral (piloto) e Gago Coutinho (navegador) terem realizado a primeira viagem aérea entre a Europa e a América do Sul (1922), em 62 horas e 26 minutos e percorrido a distância de 8.383 km, 6 anos mais tarde (1928), um outro feito ficou registado na história da aviação portuguesa e na de um filho de Abrantes (fig. 1).
                                              
fig. 1 - Postal Sr. Ruy Alves Esteves, filho do então tenente João Maria Esteves
            Foi no dia 5 de Setembro de 1928, que o jovem abrantino Capitão Celestino Pais de Ramos, então com 33 anos, descolou da Amadora no seu avião “Vicker motor Napier de 450 cv” com destino aquela que ficaria para a história como a primeira viagem aérea efectuada às colónias portuguesas da Guiné, S. Tomé, Angola e Moçambique.
            Piloto hábil e experimentado, seguindo a escola dos grandes navegadores, Pais Ramos (piloto e comandante da expedição), Oliveira Viegas (piloto), João Maria Esteves (navegador) e Manuel António (observador e mecânico), após 51 dias com escala em mais de 30 localidades, 101 horas de voo e terem percorrido mais de 15.000 km, chegam com os aviões bilugares “Vickers Valparaíso I” nºs 1 e 2 ao território de Moçambique (Zumbo), no dia 16 de Outubro de 1928. Depois de terem passado por Tete, Beira e Quelimane, regressam novamente à Beira com destino a Lourenço Marques onde chegam no dia 26 de Outubro de 1928 (fig. 2/3).
            Com esta viagem experimental, rudimentares meios de navegação, avarias do motor, condições climatéricas adversas e acentuado desgaste físico (voava-se com a cabeça exposta ao vento e à chuva, em aviões de “pau e pano”…), Celestino Pais Ramos e a sua equipa demonstraram numa acção gloriosa ser possível fazer por avião, após várias escalas de reabastecimento, a ligação aos mais recônditos lugares do Mundo. Com esta assombrosa viagem aérea ao continente africano foi reposto o progresso aeronáutico que já existia noutras nações.

fig. 2/3 – Moçambique - Aviões bilugares “Vickers Valparaíso I” nºs 1 e 2
             Depois de um merecido descanso e muitas honras prestadas aos heróis da maior aventura aérea até então efectuada, o Capitão Celestino Pais Ramos o Tenente João Esteves e o 1º Sargento Manuel António regressam à Metrópole no navio “Niassa” e desembarcam em Lisboa, no dia 15 de Dezembro de 1928. No dia 4 de Janeiro de 1929, a bordo paquete alemão “Usubara”, chega a Lisboa o Capitão Viegas.
            O “Raid Lisboa/Moçambique” não teve o intuito de competir com as viagens até então realizadas (Travessia Aérea do Atlântico Sul, por Sacadura Cabral e Gago Coutinho e a viagem Portugal Macau, por Sarmento de Beires e Brito Pais). Pais de Ramos, entrevistado pelo Jornal de Noticias (5 de Setembro de 1928), momentos antes de começar a sua maior aventura, declarou que a viagem apenas fora motivada: 1) pela vontade dos aviadores portugueses ligarem por via aérea as colónias ultramarinas 2) pelas vantagens politicas, comerciais e militares 3) pela vantagem particular que a aeronáutica portuguesa teria no treino de viagens de longo curso (a) (fig. 4/5).
 fig. 4 - Cálice de "Porto" despedida - Pais Ramos, Viegas, Esteves, Manuel António
fig. 5 - Momentos antes da partida – Viegas, Pais Ramos e Esteves
            Quando realizou o “raid aéreo” Amadora/Moçambique, Pais de Ramos já demonstrara ser um hábil e destemido piloto. Do seu currículo constava as viagens: Lisboa/Madrid em 1923 e 1925 e Lisboa/Casablanca/Lisboa em 1926, esta última com Jorge de Castilho, de cariz científico.
            Dado a aventuras, como que a adivinhar a maior proeza da sua vida que adviria dois anos mais tarde (1928), em 1926, Pais Ramos, então com de 31 anos, assombrou a Vila do Cano, terra da sua progenitora fazendo uma audaciosa aterragem no Largo do Rossio. Presenciado e festejado por toda a população foi o acontecimento registado (fig. 6).
fig. 6 - 1926 – Largo do Rossio, na Vila de Cano
            Oitenta e dois anos após o Major Aviador Celestino Pais Ramos e a sua equipa ter efectuado o “raid aéreo” Amadora/Guiné/S. Tomé/Moçambique, o “Jornal de Alferrarede” recorda esta extraordinária aventura.
            Ligados à “Expansão Ultramarina” (séculos XV/XVI), Abrantes tem muitos e ilustres filhos na sua galeria. Com a “Expansão Aérea” (1922/1928), à imensa galeria de filhos ilustres foi colocado o nome de Celestino Pais de Ramos. Do registo paroquial da Freguesia de S. Vicente, no livro de baptismos, sob o número 86, folha 47 e verso consta: Celestino, nascido na Rua Marquez de Pombal, freguesia de S. Vicente de Abrantes no dia 21do mês de Junho de 1895.Foi baptizado nesta mesma freguesia, no dia 19 de Outubro de 1895, como filho legitimo de José Luís Ramos, major reformado, natural da freguesia do Sardoal e de D. Joana Lúcia Vilela Ramos, natural da freguesia do Cano, concelho de Sousel.
            Trinta anos depois (5 se Setembro de 1958) o Coronel Viegas diria do seu companheiro de equipa: Lembro-lhe que Paes de Ramos pilotou desde a Guiné a Luanda ardendo em febre e pondo como preocupação número um, a despeito do seu estado de saúde, manter a regularidade da viagem porque considerava a responsabilidade que a todos cabia […]
            Do curriculum de Pais de Ramos constam as condecorações: Ordem Militar da Torre de Espada, Medalha da Vitória da Campanha do Exército Português em França, 1ª Classe de Mérito de Espanha, concedida por D. Afonso XIII, Medalha de Ouro de Bons Serviços de Prata de Comportamento Exemplar e Cruz de Bronze da Cruz Vermelha. Era Oficial das Ordens de Avis e de Cristo.
            Prematuramente, aos 45 anos de idade em 1940, o então Major Celestino Pais de Ramo faleceu no Hospital da Ordem Terceira de S. Francisco (a Jesus).

Publicidade  (curiosidade) – 1928
FONTES
MACHADO, José Bruno Falcão, “Viagem Amadora/Guiné/S. Tomé/Angola e Moçambique (1928)”.
FERREIRA, Pedro Manuel, Mais Alto – Revista da Força Aérea Portuguesa – Nov/Dez 2003.
CRÉDITOS FOTOS: fig. 1-  Revista Força Aérea Portuguesa “Mais Alto” Nov/Dez 2003; fig. 2/3 – Força Aérea Portuguesa/Arquivo Histórico; fig. 4/5 – Revista “Ilustração” Nº 66 16 de Setembro de 1928; fig. 6 – Cedência “canoonline.blogs.sapo.pt”.
O “Raid Aéreo Amadora/Moçambique” realizado em 1928 foi apenas um feito glorioso praticado por aviadores portugueses. Só quando se soube a filiação de Pais Ramos é que Abrantes manifestou orgulho e regozijo por saber que este era filho da terra. Em 2010, mais de um século depois do seu nascimento e oitenta e dois anos após a intrépida aventura, não merecerá o Major Piloto Aviador Celestino Pais de Ramos ser recordado num qualquer evento oficial?

ABRANTES - “PAÚL” E A RUA DO VALE DAS FONTES

Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo do autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 295JUN2010

PAÚL (S. Vicente) – «… e dahi a estrada direita ate a Estrada de Nossa Senhora da Luz, e hira a estrada acima até chegar ao Paul…» (LP 5, f. 3).
Top. Bastante frequente um pouco por todo o país, com o significado de «terreno alagadiço ou pantanoso». (1)

Não havendo muito clareza sobre o topónimo PAÚL dado a esta Freguesia de S. Vicente, parece no entanto fazer algum sentido. A ribeira que atravessa este lugar é a responsável por tal topónimo.

Gente mais antiga do Paul, lembram o tempo em que a ribeira enchia extravasava as margens e destruía as produtivas hortas ai existentes. Assim sendo, parece pois haver fundamento para se chamar a este lugar PAÚL.

Deixada a agricultura pela população mais antiga do Paúl, os terrenos ontem cultivados até à exaustão, são hoje comprados por gente mais nova para ai construírem a sua habitação.

A construção de novas habitações no Paul levou ao nascimento de novos topónimos. Ao contrário do que seria de pensar, os nomes dados a “Travessas” e “Ruas”, tem muito a ver com as antigas casas, com o que ai se cultivava e ainda com o património existente.

Por curiosidade aqui deixamos os topónimos de algumas das ruas e travessas existentes no Paúl e o registo fotográfico da “Rua do Vale das Fontes”: “Travessa dos cinco”, “Travessa da Chã”, “Travessa da Fonte”, “Rua Vale da Cerejeira”.

(1) CAMPOS, Eduardo, SILVA, Joaquim Candeias – Dicionário Toponímico e Etimológico do Concelho de Abrantes, pág. 100.








ABRANTES - MILITAR - TELÉGRAFO

O TELÉGRAFO DE “CIERA” – ANO 1810
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo do autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 292FEV2010
Um dos principais problemas que as tropas portuguesas tiveram no início do Século XIX durante a “Guerra Peninsular”, foi a inexistência de um meio das unidades em campanha comunicarem entre si, num curto espaço de tempo.
Embora entre nós já houvesse conhecimento da telegrafia visual, foi com Wellington (1810/1811) que se estabeleceram as transmissões telegráficas visuais, entre as fortificações das Linhas de Torres e os seus flancos laterais, durante as Invasões Francesas.
Para além do “Telégrafo de Bolas”, assim se denominava o sistema Inglês (fig. 1), os militares lusos sentindo a necessidade das tropas nacionais terem o seu próprio sistema, inventaram o “Telégrafo Óptico Português”: Francisco António Ciera e Pedro Folque, dois dos engenheiros militares portugueses desta época, desenvolveram os seus próprios sistemas nacionais. De menor alcance, mais baratos, mas mais eficientes, mais fáceis de usar e que imprimiam maior rapidez às comunicações (1). O sistema de Ciera utilizava um dicionário de 60.000 palavras ou frases (2).

Fig. 1 Telégrafo de Bolas - sistema Inglês

A par do arsenal logístico existente em Abrantes para proteger a capital do reino, foi mandado colocar nesta Vila em 1810 um “telégrafo”, para a transmissão de ordens militares, o que veio a acontecer após D. Miguel Pereira de Forjaz, ministro e secretário de Estado dos Negócios da Guerra, ter questionado Francisco António Ciera, director dos telégrafos e inventor do “Telegrafo Óptico Português”, sobre a demora da instalação do telégrafo em Abrantes (3) (fig. 2).

fig. 2 Telégrafo de Persianas - sistema Portugês

Ainda sobre a obra do Telégrafo de Abrantes, o marechal de campo José Lopes de Sousa, a partir desta Vila comunica a D. Miguel de Forjaz: Tenho a honra de informar V. Exª., que se tem trabalhado na obra do Telegrafo, e que posto senão ache completa toda a obra pelo que respeita a barraca e sua escada; o Telegrafo já poderia trabalhar; a corresponder-se com o da Barquinha cazo que aquelle de achasse pronto, mas não se avista ainda no lugar em que se pode collocar […] Abrantes 23 de Junho de 1810 (fig. 3).

fig. 3 Telégrafo de Abrante concluído

No dia seguinte (24Jun), o marechal de campo José Lopes de Sousa informa D. Miguel de Forjaz: Hontem participei a V. Exª que não se avistava ainda daqui o trabalharse na colocação do Telegrafo no lugar da Barquinha, mas na mesma tarde já se divizava este trabalho, e o que hoje mais se verifica. Deos Guarde V. Exª Abrantes 24 de Junho de 1810 (fig. 4).

fig. 4 - Telégrafo da Brquinha concluído

Apesar do sistema Ciera ser fácil de usar, o 2º Tenente do Real Corpo de Engenheiros, António Vaz da Cunha Salgado, propõe a João Lobo Brandão de Almeida, Governador da Praça de Abrantes alterar o método das comunicações telegráficas. Depois de descrever as alterações ao sistema Ciera, Salgado finaliza assim o Oficio: […] Se este meu trabalho V. S. julgar tirar utilidades nas circunstâncias prezentes, o seu bem conhecido patriotismo lhe dará o destino que merece. Ds Gde a V. Sa Abrantes 13 de Março de 1811 (4).
Ao ter conhecimento da carta, Francisco António Ciera, inventor do telégrafo nacional, ironizou desta forma as alterações que Salgado propunha introduzir: Desconfio q. esta seja huma d’aquellas invenções, q. …são(!...) boas sobre o papel; e conq. D’ordinário se iludem os q. não tem pratica. 20 de Maio de 1811 Ass. F.A.Ciera (4).
No contexto da Guerra Peninsular, a história do telégrafo da Vila de Abrantes continua desvalorizado. Para provar a importância deste meio de comunicação rápido (na época) vejam-se algumas das mensagens: De João Lobo Brandão para D. Miguel Pereira de Forjaz – Neste instante ás 12 do dia acabo de receber huma ordem de V. Exª pelo Telégrafo […] Abrantes 11 de Junho de 1811 (5).
Num Boletim do Thelegrafo central de Lisboa do dia 13 de Abril de 1812 ás 6h da tª consta a seguinte mensagem enviada do telégrafo de Abrantes: Participar a Marechal Beresford, q. no dia 11 do corrente vierão huns 5ooo homens de Cavallaria Inimiga a Alpedrinha, Souveneira For moza (Sobreira Formosa), Fundão saquear[…] Governador. No mesmo boletim consta ainda uma outra mensagem de Lisboa para Abrantes: Mandar pelo Thelegrapho pª Abrantes o seguinte. Marechal Beresford Ordena q. Governador reúna sem demora sua Guarnição, e se ponha no melhor estado de Defeza – Mozinho – 13 de Abril de 1812 (fig. 5).

fig. 5 Boletim Operador Telégrafo

Os últimos dados do “Telégrafo de Palhetas” ou de “Ciera”, constituído por uma armação de madeira, que se encontrava na Torre do Castelo de Abrantes, datam de 28 de Agosto de 1815. Num aviso sobre reparações urgentes no telégrafo em Abrantes consta o seguinte:
O General Azedo.
Participou-lhe o 1º Tenente de Engenheiros, Director das obras de Abrantes, qu o Comandante da Artilharia lhe tinha dito, que para evitar alguma desgraça desmanchasse o Telegrafo da Torre do Castelo, que está a cahir por se acharem podres as madeiras, e que já faltão algumas: e perguntava, o que devia fazer
.
Azedo diz, que preciza ser autorizado para mandar remover as madeiras do dito Telegrafo supposto o estado da sua ruína […] (6).
A pouca documentação que existe sobre o telegrafo visual de Abrantes e da qual tive acesso, não permite afirmar que o mesmo tivesse sido reparado e prolongado para além de 1815.
O telégrafo de palhetas/ tabuinhas ou persianas, como era chamado, implantado por Francisco António Ciera, não funcionando em condições atmosféricas adversas ou de noite, foi no entanto o método mais eficaz de transmitir mensagens durante a Guerra Peninsular e após esta, prolongando-se no tempo até ao advento do telégrafo eléctrico.
No ano que decorre, faz 200 anos de ter sido estabelecido na Torre do Castelo de Abrantes o Telégrafo de “Palhetas ou Persianas”.
Conhecendo-se a utilidade militar que o “Telégrafo Óptico” de Abrantes teve durante a Guerra Peninsular, onde encontrar esboços, óculo (fig. 6), dicionário telegráfico/fraseologia, tábuas telegráficas/Instruções para o Serviço Telegráfico (fig. 7), quem construa uma réplica à escala natural do Telégrafo de Ciera (7), porque não incluir o tema num dos eventos sobre as Invasões Francesas e fazer uma recriação inédita e histórica, no local onde foi construído no ano de 1810?

fig. 6 Monóculo da Marinha Século XIX

fig. 7 Códigos - Tábuas Telegráficas

FONTES:

fig. 1 Telégrafo de Bolas – sistema Inglês – Câmara Municipal de Mafra/Dez2008 – recriação histórica.
fig. 2 Torre Castelo de Abrantes – Telégrafo “Ciera” – sistema português (imagem tratada no Photoshop – José Vieira)
fig. 3 Telégrafo de Abrantes concluído - AHM-DIV-1-14-269-50 (02)
fig. 4 Telégrafo da Barquinha concluído - AHM-DIV-1-14-269-50 (01)
fig. 5 Boletim do Telégrafo Central com referências às comunicações do Telégrafo de Abrantes – AHM-DIV-1-14-180-25
fig. 6 Óculo com alcance superior a 3 léguas (usado pela marinha 1ª metade do Séc. XIX
fig. 7 Códigos – Tábuas Telegráficas/Instruções para o Serviço Telegráfico – Documentos cedidos pela Biblioteca da Marinha – Arquivo Histórico.

(1)José Paulo Berger – Chefe do Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar (2008); (2)AHM/DIV/1/14/170/07 – Carta de Francisco António Ciera – Página 2; (3)AHM/DIV/1/14/064/32; (4) AHM/DIV/1/14/175/34; (5)AHM/DIV/1/14/097/13; (6)AHM/DIV/1/16/092/33; (7)FCosta – Oficina de Museus – Rua Alexandre Sá Pinto nº 109 – 1300-034 Lisboa - Construção réplicas históricas. A réplica do Telégrafo de Bolas, sistema Inglês foi executada nesta oficina (fig. 1).
Documentos: Instruções para o Serviço Telegráfico 1810 e Tábuas Telegráficas 1810 (caixa 1305), foram cedidos pela Biblioteca Central da Marinha – Arquivo Histórico, exclusivamente para este trabalho publicado no “Jornal de Alferrarede”.
Em 1303 a Torre de Menagem tinha “três pavimentos”. O terramoto de 1531 desmoronou dois andares. Em 1810, quando o telégrafo de Ciera foi instalado na Torre do Castelo este, encontrava-se tal como hoje o conhecemos exteriormente.

O “telégrafo de persianas português”, criado pelo Doutor em Matemática, Francisco António Ciera, implantado em 1810, na Torre do Castelo, nunca foi incluído ou discutido num evento em Abrantes quando o tema é a Guerra Peninsular.
Dos muitos documentos antigos (1810/1834) onde o nome de Abrantes aparece, invariavelmente, lá se encontra algo relacionado com o “telégrafo Abrantes/Barquinha”.
Fazendo parte de uma das três redes telegráficas implantadas no Reino, o Telégrafo de Abrantes poderá ter tido um papel mais importante durante as campanhas napoleónicas do que efectivamente se pensa.
“Abrantes Militar – O Telégrafo”, não pretende ser um artigo pretensioso. O texto é apresentado por sequência de datas, tal como foram consultados.
A procura de outra documentação sobre o “Telégrafo de Persianas” utilizado naquela que penso ter sido a linha telegráfica das Beiras (Lisboa/Atalaia/Barquinha/Abrantes/Castelo Branco/Elvas) carece de outros conhecimentos que não os do autor. Para recriar e reviver uma parte importante da Guerra Peninsular que foi o “Telégrafo português de Palhetas”, instalado na Torre do Castelo de Abrantes é uma aventura que só o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal e os nossos insignes historiadores e arqueólogos podem realizar.
José Manuel d’Oliveira Vieira/Fev2009

INICIO E FIM DO CONVENTO NOSSA SENHORA DA GRAÇA DA VILLA DE ABRANTES – AS CARTAS

Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo do autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 290DEZ2009

CONVENTO DOMINICANO FEMININO NA VILLA DE ABRANTES

A origem do Mosteiro de Nossa Senhora da Graça teve princípio no Bispo da Guarda D. Fr. Vasco de Lamego, em cuja diocese se compreendia a então Vila de Abrantes.
Com os sobejos das suas rendas, Vasco de Lamego, no ano de 1422 (ano do Redentor 1384), ordenou o levantamento de um Mosteiro de Freiras em Abrantes, em louvor da Virgem Maria, em local que não onde hoje se encontra a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.
Escolhida pelo Bispo a Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, floresceu este Mosteiro até ao tempo do Rei D. Duarte, quando um surto de peste dizimou todas as suas religiosas quase fechando o Mosteiro de invocação a Nossa Senhora da Consolação.
Para continuar a servir as ordens monásticas, não perderem as casas desabitadas, rendas e propriedades por falta de administração, os Bispos da Guarda lhe nomearam Comendatárias, como recolhimento de mulheres nobres sem clausura (a) […]. Devido ao esbanjamento de rendas e propriedades, durou este provimento pouco menos de cem anos, até uma outra mulher, a moça e nobre filha de Affonso Florim e de Violante Alvares d’Almeida restituir o Mosteiro à sua antiga religião.
Restituídos que foram pela Prioresa Brites de S. Paulo os virtuosos intentos e bons princípios ao Mosteiro, no dia de todos os Santos, em 1529, fizeram profissão as primeiras noviças.
Em 1541, quando o Padre Mestre Fr. Jerónimo de Padilha, Provincial de S. Domingos passou pela vila de Abrantes, o Mosteiro de Nossa Senhora da Consolação passou a designar por Nossa Senhora da Graça, para se distinguir do convento dos frades que já se designava dessa forma.
Assumido pela Ordem Dominicana, esta comunidade de onze companheiras, já com licença da Sé Apostólica para o Mosteiro poder passar ao Hábito e Regra de qualquer das Ordens reformadas então existentes (1541), D. João III, concedeu às freiras o privilégio para poderem, sem mais autoridade de justiça, mandar executar os seus rendeiros e caseiros.
Com gente nobre a afluir cada vez mais ao Convento, casas velhas, aposentos estreitos, em sítio incapaz de se alargar, resolveram as Monjas Dominicanas obter licença para nova casa em posto mais cómodo e mais chegada à Vila.
Para a construção da sua nova casa el-Rei concedeu-lhes algumas esmolas em dinheiro, e huns alvitres de importância. Eis parte da carta enviada à Madre Prioresa e Freiras: Eu el-Rei vos envio muito saudar. O Padre Frei Pedro Bom, me requereo da vossa parte o despacho da venda dos officios d’Escrivão da Câmara, e d’Almotaçaria d’essa villa, e assim da parede, e chãos, de que vos fiz mercê, e esmola para as obras do Mosteiro novo: E o despachei, segundo vereis por huma carta, que sobre isso escrevo ao Corregedor d’essa Comarca […] para que este verão, que vem, com a ajuda de nosso Senhor vos possais mudar ao dito Mosteiro novo […]
Concluído o novo edifício e cerca do Mosteiro da Graça, sendo Provincial o Padre Frei Francisco de Bovadilha se fez no ano de 1548 a solene passagem de trinta e quatro religiosas para o novo Convento Dominicano feminino, este sim, no local onde hoje se encontra a Escola Superior de Tecnologia de Abrantes.
A esposa de D. João III, Rainha D. Catarina, senhora religiosa e de muita bondade, ajudava e escrevia com alguma frequência ás freiras do Convento da Graça.
Para os que nunca tiveram oportunidade de ver as cartas enviadas pela Prioresa à Rainha D. Catarina bem como a do Corregedor de Abrantes ao Rei D. João III, quatro séculos depois "COISASD'ABRANTES" dá a conhecer um pouco mais da história do já desaparecido Convento Dominicano de Abrantes:
01 de dezembro de 1551 – Carta de D. Isabel de S. Francisco, Prioresa da Graça de Abrantes, dando conta ao Rei (D. João III) não consentir na avaliação que fez o corregedor de Abrantes da obra que fizera no dito Mosteiro, Pedro Fernandes (fig. 1).

(fig. 1)

02 de dezembro de 1551 – Carta do Corregedor de Abrantes dando parte ao Rei (D. João III) que, em cumprimento da sua real ordem, fora com os oficiais ao Mosteiro da Graça de Abrantes, medir a obra que fizera Pedro Fernandes para regulação da sua conta (fig. 2).

(fig. 2)

04 de novembro de 1559 – Carta da Princesa (b) e mais Religiosas do Convento de Nossa Senhora da Graça, da Vila de Abrantes, de agradecimento à Rainha da esmola que manda dar todos os anos (fig. 3).

(fig. 3)

09 de setembro de 1561 – Carta da Prioresa e Freiras de Nossa Senhora da Graça da Vila de Abrantes em que, com esta, mandou os 3 mantéus e um barril de óleo de flor (fig. 4).

(fig. 4)

Fonte: História de S. Domingos.
(a) Eram os tempos pouco escrupulosos, e as Prioresas de nome, livre e liberais, para darem, doarem e casarem suas criadas com os bens eclesiásticos (pg.238 – livro III História de S. Domingos).
(b) Foi esta carta mal catalogada. Em vez de Princesa deve-se ler Prioresa. À data de 1559, não havia nenhuma princesa no reino.
Cartas e textos: Direção Geral de Arquivos (http://digitarq.gov.pt/ ): (1) PT/TT/CC/1/87/27; (2) PT/TT/CC/1/87/29; (3) PT/TT/CC/103/128; (4) PT/TT/CC/1/105/32

DATAS QUE MARCARAM O FIM DO ÚNICO CONVENTO DOMINICANO FEMININO EM ABRANTES *
04 de novembro de 1891 – Morre Maria Angélica do Santíssimo Rosário (Maria Angélica Godinho), Prioresa e última religiosa professa do Convento de Nossa Senhora da Graça. Os bens do Convento são arrolados pela autoridade administrativa, solicitando a CMA ao Governo a cedência do imóvel.
03 de dezembro de 1891 – O Governo cede provisoriamente à CMA o edifício e cerca do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça, para nele se estabelecerem as repartições publicas e suas dependências, escola municipal de instrução secundária e tribunal judicial.
19 de abril de 1892 – O Governo torna definitiva a concessão provisória feita à CMA do edifício e cerca do Convento de Nossa Senhora da Graça.
24 de julho de 1892 – Tem inicio a venda de bens do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça. Na inventariação desses bens, as competências do administrador do concelho são por mais de uma vez postas em causa, ou mesmo ignoradas, por outras autoridades locais.
29 de dezembro de 1892 – O administrador do concelho confere a posse do Convento de Nossa Senhora da Graça à CMA.
21 de dezembro de 1893 – Face à recusa manifestada pelo arcipreste de Abrantes, Manuel Martins, em entregar as chaves do Convento de Nossa Senhora da Graça, a Câmara Municipal de Abrantes (CMA), toma posse do edifício através do arrombamento de uma porta.
Janeiro (!!!) de 1895 – A CMA autoriza o arcipreste de Abrantes a retirar diversos bens culturais do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça, para serem distribuídos na forma de lei.
25/26 de fevereiro de 1895 – Regista-se uma grande cheia do Tejo. Alguns habitantes do Rossio ao Sul do Tejo obtêm abrigo no Convento de Nossa Senhora da Graça. (Refere-se este facto por ter sido o último serviço prestado à comunidade local).
16 de junho de 1897 – A CMA doa à Santa Casa da Misericórdia dois altares laterais da Igreja do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça.
01 de junho de 1898 – A CMA doa à Junta de Paróquia de Rossio ao Sul do Tejo dois altares laterais da Igreja do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça, para serem colocados na Igreja Matriz daquela freguesia.
01 de fevereiro de 1899 – A CMA doa ao mordomo das Capela de S. José de Nossa Senhora das Dores, de Ortiga, um retábulo existente no coro da Igreja do extinto Convento de Nossa Senhora das Graça.
07 de março de 1900 - CMA doa à Irmandade do Senhor Jesus dos Passos um dos altares laterais da igreja do extinto Convento de Nossa Senhora da Graça para um novo passo que a irmandade construiu na Rua Luís de Camões.
06 de junho de 1900 – José Martinho Charneca, de Lisboa arremata em hasta publica por 201$500 o altar-mor da Igreja do Convento de Nossa Senhora da Graça.
23 de outubro de 1901 – É assinada a escritura para demolição do Convento de Nossa Senhora da Graça e construção do edifício das repartições públicas, que fica concluído em abril de 1904.
*(Cronologia de Abrantes no Século XIX /XX – Eduardo Campos - Edição CMA 2000/2005)

*CONVENTO DA GRAÇA E SUA CERCA


CONVENTO DA GRAÇA – DEMOLIÇÃO

DEMOLIDO O CVTº NASCEU EDFÍCIO PÚBLICO

ABRANTES -1916/1926

CENSURA MILITAR
1916/1919 - 1926/1929
I GUERRA MUNDIAL – C.E.P./ESTADO NOVO
"Por longo tempo o operariado, o povo em geral, a imprensa, gemeram sob as botas de coiro pesado e polido dos generais, capitães, tenentes, soldadesca da ditadura governamental"
O Colonial, 19/9/1930 (New Bedford)
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo do autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 289NOV2009 - Alterado para o BLOG COISASD'ABRANTES
Só quem não viveu uma situação de guerra desconhece a importância que tem a troca de correspondência entre o combatente e a família, para que estes possam manter o equilíbrio físico-psicológico.
As duras condições que o “Corpo Expedicionário Português” (CEP) enfrentou em França ou colónias, na Guerra 1914/1918, encontram-se bem documentadas nas cartas e postais que os intervenientes no conflito enviaram aos seus familiares e amigos.
O que a maior parte dos expedicionários e familiares desconhecia era que a correspondência enviada para países estrangeiros ou colónias e recebidas destas, passava pela censura que era exercida por oficiais superiores e funcionários do correio militar.
A Lei 495, de 28 de Março de 1916, instituiu a censura preventiva durante a guerra de forma a filtrar todo o correio, pelo que a partir daquela data, quem infringisse as normas estipuladas no regulamento de censura, sujeitava os seus autores a duríssimas penas disciplinares.
Num dos piores cenários de guerra já vividos, a partir dos acantonamentos, hospitais, trincheiras, em mesas, bancos improvisados ou sobre os joelhos, muitas foram as cartas e postais que os militares do C.E.P. (Corpo Expedicionários Português) escreveram e receberam dos seus familiares (fig. 1/2).
fig. 1
fig. 2
A uma distância não muito longínqua da grande tragédia que foi a Grande Guerra 1914/1918, ainda é possível encontrar no Concelho de Abrantes algumas dessas cartas e postais com o carimbo da censura imposta pela Lei 495.
Neste pequeno texto sobre a “CENSURA MILITAR” instituídas em 1916 e em 1926, podemos ver as seguintes preciosidades: “Bilhete-postal” da Praça da Republica – Abrantes com os carimbos da “CENSURA 27NOV1917” e do “C.E.P. Do mesmo ano um outro Bilhete-postal com o carimbo dos correios “Alferrarede” e da “CENSURA 13MAR1917” (fig.3/4).

fig.3

fig.4

Em resultado da instalação da censura na Ditadura Militar (28 de Maio de 1926 – censuras locais), podemos ver o Jornal “CORREIO DE ABRANTES”, tal como foi publicado no dia 27 de Fevereiro de 1927 (fig. 5/6).

fig. 5/6

Fotos Colecção Garcês: 110-J10-PQ-1-17 e 110-J10-PQ-1-553.
Bilhete-postal de Abrantes: Um das dezenas de postais referentes à I Guerra Mundial (Colecção José Vieira)