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UNIDADES E PONTES MILITARES EM ABRANTES - SÉCULO XVIII/XIX

José Manuel d’Oliveira Vieira
(Artigo Autor "Jornal de Alferrarede Abr2006)
A necessidade de haver uma travessia para uma das margens de um qualquer rio, para a circulação de pessoas e mercadorias, constituiu desde sempre uma preocupação permanente das populações aos longo dos séculos.
Para a travessia do Rio Tejo, a população do “Rocio de Baixo e Rocio de Cima”, recorria com frequência a jangadas, barcas, ou aproveitava os vaus proporcionados pelo rio.
Segundo um mapa atribuído a João Teixeira Albernaz, referente à Fronteira entre o Alentejo e a Estremadura Espanhola, do ano 1650 com as “Villas queimadas en Castella” e as “Villas tomadas en Castella”, no contexto da Batalha do Montijo, na Guerra da Restauração da independência de Portugal, vê-se parte da Província da Beira, o Castelo da “Villa de Abrantes” e o Rio Tejo. Na parte portuguesa não existe qualquer ponte edificada, ao contrário da parte espanhola na zona de Castella em Alcântara, onde se identifica uma ponte sobre o Rio Tejo (fig. 1).
Em 1731, quando do levantamento das fortificações projectadas e iniciadas na praça da “Villa e Castelo de Abrantes”, pelo Engenheiro Engeléer, lá se encontra uma “Ponte de Barcas”, protegida por redutos de defesa nas duas margens, entre a Ribeira de Fernão Dias (Rossio ao Sul do Tejo) e o Rio das Hortas (Lopo).
Indicar-nos-á este mapa ter existido efectivamente uma ponte (militar) neste local? (fig. 2).
A gravura mais antiga e conhecida que retrata uma ponte sobre o Rio Tejo em Abrantes, tem data desconhecida e é capa do livro “Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes”, de Manuel António Morato e Joaquim da Fonseca Mota – organização e notas de Eduardo Manuel Tavares Campos”. Pela leitura da gravura, localização da “Villa” e ponte, parece ser o local referido pelo Engenheiro Engeléer no mapa das fortificações projectadas e iniciadas (fig. 3).
O “Mappa Topográfico” de 1797, do “Tenente-coronel Manoel de Souza Ramos e Segundo Tenente José Maria Ferreira da Fonseca”, localiza uma “ponte de barcas”, no local onde hoje está a ser construído o Açude insuflável. Neste “Mappa”, realça-se os pormenores de defesa da controversa ponte, bem como o modelo das barcaças “ponteneiras” do Real Arsenal da Marinha, utilizadas especialmente neste tipo de construção (fig. 4). Por um “Mappa Militar” de 1801, fica-se a conhecer os acampamentos de “Tropas Portuguesas e Inglesas”, que constituíam a defesa da “ponte” e da “Villa”. Esta defesa tinha ainda como objectivo proteger um grande depósito de munições, cujas ruínas existiam até há poucos anos em Abrantes, em local conhecido por "CURVA DO PAIOL".
A defesa da ponte consistia: a Sul (Cabeço do Caneiro), por Infantaria e Cavalaria; a Norte (no local onde hoje se situa a Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes), por Artilharia. A defesa da “Villa de Abrantes” começava a Sul na estrada para Bemposta e era constituída por Infantaria/Artilharia Britânica e Cavalaria; na “Banda d’Além” (Rocio ao Sul do Tejo) por Caçadores e Granadeiros; na “Banda Norte” (Barreiras do Tejo) pela Infantaria/Artilharia Britânica e ainda por Artilharia e Infantaria Portuguesa. O último dos acampamentos, situava-se, junto à estrada para “Villa de Rey” e era constituida por Unidades de Cavalaria. Não sendo muito esclarecedor, tudo leva a crer que sendo este um “Mappa” de defesa da “Villa”, a alternativa à ponte existente (já mencionada em 1731), mais não é de que uma ponte estratégica (fig. 5).
A localização de uma “Casa das Barcas” junto ao “Lopo”, numa “Planta da Praça de Abrantes” de 1817, indiciará ter havido neste local uma ponte de barcas? A referência nesta “planta” a dois “vaus”, poderá significar ser passagem de uma população menos abastada. É que já no século XVII, “as barcas de passagem prestavam um serviço caro e irregular (1)” (fig. 6)
Entre 1790/1812, o “Coronel de Engenharia Manoel de Souza Ramos” elabora um plano, cujo texto se transcreve: “Plano de huns Cobertos para recolher as 60 Barcas Ponteneiras, q. forão do Real Arcenal da Marinha a servir nas Pontes, q. se lançarão no Tejo de Abrantes, e Rio Zêzere (entre 1780 e 1810?); os quaes poderão servir também para os 30 Bateis pertencentes à Ponte de Villa Velha tendo os ditos Cobertos mais metade do seu comprimtº” (fig. 7/7a).
Como se pode ver pelos mapas e cartas da época, aparecem dois locais a situar as pontes: a primeira (1731) consta como estando entre a Ribeira de Fernão Dias (Rossio ao Sul do Tejo) e o Rio das Hortas (Lopo) “planta do Engenheiro Engeléer”. O “Mappa Topográfico” do Engenheiro Manoel de Souza Ramos (1797) localiza a segunda ponte onde hoje está a ser construído o Açude insuflável.
Mas, para surpresa de muitos, uma terceira ponte havia de aparecer. Durante uma conferência, subordinado ao tema “reorganização do exército português no tempo do Conde de Lippe”. Na Biblioteca de Abrantes, no dia 24 de Outubro de 1984, o Dr. Fernando Salgueiro Maia apresentou pela primeira vez aos Abrantinos um “Desenho da ponte militar “estabelecida no Tejo da Villa de Abrantes de 1808”. Esta sim existiu efectivamente no local onde teimosamente alguns ainda continuam a chamar “ruínas de uma ponte romana”. Com esta apresentação, Salgueiro Maia exclui a hipótese dos romanos terem alguma vez edificado uma ponte sobre o Rio Tejo em Abrantes (fig. 8).
Da leitura feita às cartas topográficas e mapas apresentados, resulta o seguinte: exceptuando o mapa do Engenheiro Engeléer (fig. 2), todas as outras plantas e planos (fig. 4, 7 e 8), são da autoria do “Engenheiro Manoel de Souza Ramos”, sendo que esta última (fig.8) tem a particularidade de ter sido assinada pelo próprio no dia 13 Maio de 1812 no Quartel de Abrantes.
Entre os anos 1731/1797/1801, muitos acontecimentos militares fizeram de Abrantes uma “praça de guerra”. O grande número de tropas e armas (artilharia e cavalaria) na margem Sul para defesa da “Villa de Abrantes” teriam necessariamente de utilizar uma ponte. Essa ponte, bem poderia ser a do “Mappa Topográfico” de 1797, uma vez que a sua exposição está bem sustentada.
A existência de uma ponte alternativa conforme se encontra no “Mappa Militar” de 1801 (defesa da Villa de Abrantes), é o normal em planos de estratégia.
Passar cursos de água, usando corpos flutuantes (barcos ou jangadas) sempre foi e continua a ser uma necessidade. O Rio Tejo em Abrantes era no século passado palco de inúmeros exercícios militares. O recurso a pontes de barcas (“improvisadas” ou de “equipagem”) fazia parte das “manobras” anuais realizadas pela Engenharia militar.
Em local sobejamente conhecido dos Abrantinos pode-se ver um desses exercícios com recurso a material de antemão preparado (fig. 9).
Não discutindo o direito de cada um interpretar de maneira diferente os mapas consultados, o presente artigo é apenas uma opinião e não pretende de forma alguma questionar o que se tenha dito e escrito sobre a história de Abrantes.
(1) Tráfego no Tejo pág. 312 Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes
Figuras: 1 e 7 Biblioteca Nacional; 2, 4, 6 e 8 Arquivo Militar; 3 Manuel Martinho; 9 Carlos Vieira Dias.

1 comentário:

António Viana disse...

É sempre bom conhecer, as histórias que nos permitem adquirir novos conhecimentos do nosso local de nascimento. Deves de continuar o teu trabalho, está a ser muito útil para os verdadeiros Abrantinos.