DIÁRIO DE UM COMBATENTE II

EXPEDIÇÃO A MOÇAMBIQUE (1916)
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
(Autor artigo publicado "Jornal de Alferrarede" Nº 271 Mai2008)
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NOTA: Salvaguardando relatórios oficiais elaborados durante o inferno do Rovuma, poucos são os manuscritos de combatentes que chegaram aos nossos dias. Os relatos desse inferno, "diário", "mensagens", "fotos", "espada" e "capacete", tudo propriedade do autor, são documentos únicos que urge preservar. A juntar à história dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes 1923/2004, fica mais este testemunho que poderá um dia fazer parte de um futuro Museu: Aos Combatentes do Concelho de Abrantes.JMOVJan2010
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EXCERTOS DE MENSAGENS ENVIADAS A ALFREDO ALVES DA SILVA
5 Maio de 1916 – (verso de um telegrama alemão) A peça (canhão), não pode hoje passar o rio onde está o barco. Deixe a peça com 10 cipaios na palhota mais próxima que encontrar e siga com o pessoal e munições.
20 Maio 1916 – Pelo portador lhe é enviado o que pede e o tabaco da semana que só hoje foi distribuído.
20 Maio 1916 – Só hoje consegui arranjar carregadores para conduzirem os géneros. …os géneros vinham numa lancha, mas os alemães atacaram, havendo uma escaramuça, os carregadores ouvindo os tiros fugiram.
22 Maio1916 – … A requisição de tabaco pode incluir fósforos, papel, sabão…
29 Maio 1916 – …Marche logo que possa pois estou desejoso de ver a bateria toda junta. Mando viveres para dois dias para os cinco brancos e para cinco indígenas.
5 Junho 1916 – … Tens sido atacado? Nós tentamos a primeira passagem mas fomos mal sucedidos, como talvez saibas.

Abrantes - Escada lateral esquerda Convento S. Domingos - Artilharia Montada

6 Junho 1916 – … Vou dar-lhe embora mui resumidamente… os pormenores do combate de 27 findo. No dia 26 pela 1 hora da noite marchei de Namôto para este posto (Namaca) com 3 peças juntamente com os camaradas Marques, J. António e Cardozo. Às 8 da manhã rompemos fogo para a margem esquerda, cooperando connosco o Adamastor, mas os alemães nesse dia não derem o menor sinal de que ali estivessem. No entanto durante o dia tudo se preparou para o combate do dia seguinte (27), 20ª companhia indígena e 1ª companhia indígena, grupo de metralhadoras, uma secção da marinha e a bateria de que faço parte. Em 27 rompeu-se fogo às 8 horas (estava também a bateria Canet) um fogo verdadeiramente intenso cooperando também connosco o Adamastor e os “boches” nada responderam. Ás 9 horas cessou o fogo e então é dada ordem para que um pelotão do 21 de infantaria e outro do 20 avançassem para a praia o que imediatamente fizeram. Uma vez ali estenderam em linha de atiradores e assim aguardaram a chegada das lanchas que os haviam de conduzir à margem esquerda, chegando mesmo a comerem o rancho na praia. Ás 9 horas chegaram as lanchas a reboque e é então dada ordem de embarque o que imediatamente fizeram sem que coisa alguma os prejudicasse; no entanto a artilharia ia protegendo as lanchas. Postas em andamento e quando estavam talvez a 100 metros da margem esquerda rompe sobre eles um verdadeiro dilúvio de balas enviadas pelas metralhadoras que eles (alemães) possuem. (Ouviu-se neste momento para os lados de Namianga a metralhadora a funcionar, vou pôr-me em abrigo). Não calculas a confusão que naquele momento houve; os que iam nas lanchas deitaram-se ao rio aqueles que puderam, e outros ficaram mortos dentro das mesmas. A Bateria a que pertenço foi um verdadeiro alvo e só a um milagre se deve não haver feridos nesta unidade. Calcula-se em mais de 50 o número de mortos e feridos, sendo o capitão Alpoim de infantaria 21, sargento Brandão de infantaria indígena e alguns soldados e cabos europeus de infantaria 21 e muitos da 20ª companhia indígena: O tenente Ferreira, pré-comandante militar de Kionga foram ferido gravemente e o capitão Fernandes da 20ª. Neste mesmo dia à noite, o comandante da Chaimite foi à margem esquerda para ver se poderia salvar duas metralhadoras que iam a bordo das lanchas e que os alemães nos apreenderam, fazendo também prisioneiro Matos Preto, comandante a que me refiro atrás.
Há dois dias que aqui veio um parlamentário alemão pedindo medicamentos para os nossos feridos que eles lá têm prisioneiros. São agora 4 e 20, estão atacando Namôto e já deram para aqui alguns tiros de carabina, vou para a trincheira.
Bom dia! Interrompi hontem esta para marchar para a trincheira pois os alemães atacaram, dando apenas alguns tiros de carabina.
Dormi na trincheira com…. Pelas 6 ½ cumprimentaram-nos com um tiro de carabina. Novidades do combate de Namôto ainda se não sabem. Aguardo o camarada J. António que hontem ali foi para conduzir para aqui munições e este contará alguma coisa. Com referência ao combate de 27… confirma-se que os alemães têm em seu poder duas metralhadoras… (os alemães estão agora a fazer fogo, mas não me impedem de continuar a escrever porque estou abrigado). O Marques baixou há dias ao hospital…

Guiné - 1908

6 Junho 1916 – Recebi as suas munições…. Essa peça (canhão) que ai está deve regressar logo que aí cheguem as peças 37 da marinha que há dois dias foi para ai… o pessoal deve continuar até nova ordem.
Encorage lá os rapazes enquanto puder…. Aqui houve algumas baixas…
16 Junho 1916 – … A causa do bombardeamento do dia 13 foi a canalha “germanófila” assaltaram o posto de Namaca nessa mesma madrugada, matando os soldados nºs 135 e 257 da nossa bateria e um de infantaria e fizeram-nos prisioneiros um tenente de infantaria e alguns soldados da mesma arma. …. Queixas-te que há mais de um mês não recebes sabão, outro tanto me acontece. A última vez que o recebemos foi em Palma…. O R… ficou em Porto Amélia para acompanhar depois o gado, apareceu o gado em Palma e ele ficou lá a fazer não se sabe o quê. Naturalmente cagou as ceroulas quando soube que a bateria marchava para a margem do Rovuma.

Penamacor - Artilharia de Montanha - 1912

18 Junho 1916 – Ai vai o que em medicamentos foi possível arranjar. Tintura de iodo não foi possível. …o 225 ficou gravemente ferido não tendo ainda notícias dele….
Propositadamente deixei para o fim a carta (mensagem) nº 9 de 7-7-1916. Esta mensagem, dirigida a Alfredo Alves da Silva, quando se encontrava na margem do Rovuma, Moçambique, resume o sacrifício dos combatentes que fizerem parte da expedição mais sacrificada e mortífera descrita na História de Portugal, durante a I Grande Guerra 1914/1918: Meu caro A.S. (Alfredo Alves da Silva)
Os 1ºs Sarg. Felizardo, Rosa, Cardozo, M. Pereira, Inês, Souza, tenente Ferreira e este seu amigo cumprimentamo-lo desejando-lhe muita saúde para assim melhor cumprir, com o seu desejo, de bem desempenhar a espinhosa missão de que foi incumbido para honra do nosso exército e glória do velho Portugal. (ass. Rodrigues)

Espada m/892 de ferro polido - Artilharia e Cavalaria

Chapéu - Capacete

Referências: O Chapéu de feltro (capacete) e espada que se mostram neste artigo foram usados pelo combatente Alfredo Alves da Silva, na Primeira Grande Guerra em Moçambique e França. As fotos do Combatente Alfredo Alves da Silva, fizeram parte do espólio de Henrique Santos Silva que foi Maestro do Orfeão Abrantino. Mapa de Operações e Trincheira de Kionga, retirados do “O Portal da História – Portugal na primeira Guerra Mundial - Moçambique”
NOTA: Durante o serviço militar, o Combatente Alfredo Alves da Silva, esteve de 1900 a 1901 em Expedição a Macau e em Comissão na mesma provincia de 1905 a 1907. Em 1908 esteve 144 dias na Guiné. De 1915 a 1916 fez uma Expedição a Moçambique. De regresso ao Reino, Alfredo Alves da Silva parte em Expedição para França, onde permaneceu de 26 de Setembro de 1917 a 19 de Março de 1919.
Já fora das fileiras, Alfredo Alves da Silva, dedicou-se ao associativismo. Parte do seu tempo (faceta pouco conhecida) foi compor músicas para violino, que seu filho Henrique Santos Silva, distinto Maestro do Orfeão Abrantino tão bem soube interpretar.

Alfredo Alves da Silva - Orfeão Abrantino

BOAS FESTAS BLOGUISTAS

AMIGOS BLOGUISTAS
"COISASD'ABRANTES" despede-se de todos os que tiveram a amabilidade de visitar este Blog durante 2008/2009 (14.380 visitantes). No mês de Janeiro voltarei com com a publicaçao da II e última parte de uma história (real) vivida na I Grande Guerra 1914/1918, por um Combatente de Abrantes: "O DIÁRIO DE UM COMBATENTE".
Até lá visite as páginas do COISASD’ABRANTES.
NOTA: Os links sobre a História da Sub-Agência da Liga dos Combatentes (1923/2005), vão continuar bloqueados. Daqui a algum tempo direi neste blog a razão porque bloqueei as referidas páginas - O Autor da História José Manuel d'Oliveira Vieira.
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: PEDRA QUE SERVIU D. JOÃO I EM ABRANTES – AS EDIFICAÇÕES EXISTENTES E A HISTÓRIA DO CASTELO
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: ABRANTES "CRISÂNTEMOS e PLACAS AJARDINADAS "
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: ABRANTES – RELÓGIO DE SOL VERTICAL (I) E (II)
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: DR. AUGUSTO DA SILVA MARTINS – COMBATENTE, MÉDICO E DESPORTISTA
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: UNIDADES E PONTES MILITARES EM ABRANTES – SÉCULO XVIII/XIX
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ANO 2008 MÊS MAIO
ASSUNTO: ABRANTES DE ONTEM E DE HOJE... (PARTE I) (a)
(a) – Ver parte (II) Março 2009
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ANO 2008 MÊS JUNHO
ASSUNTO: HISTÓRIA DA LIGA DOS COMBATENTES – CAPITULO I – II – III (a) (b) (c)
(a) – Ver capítulo (IV – V – VI) Outubro 2008
(b) – Ver capítulo (VII) Janeiro 2009
(c) – Ver capítulo (VIII) Fevereiro 2009
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ANO 2008 MÊS JULHO
ASSUNTO: CISTERNAS DE ABRANTES (I)
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ANO 2008 MÊS JULHO
ASSUNTO: BOMBA!...
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ANO 2008 MÊS AGOSTO
ASSUNTO: ABRANTES – FONTES E LAVADOUROS
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ANO 2008 MÊS AGOSTO
ASSUNTO: CORETOS DO CONCELHO DE ABRANTES
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ANO 2008 MÊS SETEMBRO
ASSUNTO: ABRANTES – ÓRGÃOS DE TUBOS
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ANO 2008 MÊS OUTUBRO
ASSUNTO: ABRANTES INAUGURA A SUA PRAÇA DE TOUROS (8 DE JULHO DE 1900)
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ANO 2008 MÊS OUTUBRO
ASSUNTO: HISTÓRIA DA LIGA DOS COMBATENTES – CAPITULO IV – V – VI
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ANO 2008 MÊS NOVEMBRO
ASSUNTO: COMPANHIA DE MOAGEM DE ABRANTES "ANTIGA MOAGEM AFONSO XIII"
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ANO 2008 MÊS DEZEMBRO
ASSUNTO: ABRANTES – AQUI ACABOU A HISTÓRIA... UMA PLACA INCÓMODA NA PRAÇA DA REPÚBLICA (NO MONUMENTO AOS M.G.G. DESDE 1948)
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ANO 2009 MÊS JANEIRO
ASSUNTO: MAESTRO HENRIQUE SANTOS SILVA – RECUPERAÇÃO DE UM ESPÓLIO
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ANO 2009 MÊS JANEIRO
ASSUNTO: HISTÓRIA DA LIGA DOS COMBATENTES – CAPITULO VII
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ANO 2009 MÊS FEVEREIRO
ASSUNTO: HISTÓRIA DA LIGA DOS COMBATENTES – CAPITULO VIII (último)
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ANO 2009 MÊS MARÇO
ASSUNTO: LIGA DOS AMIGOS DE ABRANTES
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ANO 2009 MÊS MARÇO
ASSUNTO: ABRANTES DE ONTEM E DE HOJE… (PARTE II)
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ANO 2009 MÊS ABRIL
ASSUNTO: ABRANTES – 25 DE NOVEMBRO DE 1975
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ANO 2009 MÊS MAIO
ASSUNTO: FORAL DA RIBEIRA GRANDE – DADO POR D. MANUEL I EM ABRANTES
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ANO 2009 MÊS JUNHO
ASSUNTO: ABRANTES – CVTº DE SANTO ANTÓNIO
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ANO 2009 MÊS JULHO
ASSUNTO: CASA/ERMIDA SENHOR/A DOS REMÉDIOS E REDUTO MILITAR
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ANO 2009 MÊS OUTUBRO
ASSUNTO: ERMIDA S. JOÃP DOS BEM CASADOS – ALFERRAREDE VELHA – ABRANTES
LINK:http://coisasdeabrantes.blogspot.com/2009/10/ermida-de-s-joao-dos-bem-casados.html
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ANO 2009 MÊS OUTUBRO
ASSUNTO: ABRANTES DE ONTEM E DE HOJE… (PARTE III)
LINK: http://coisasdeabrantes.blogspot.com/2009/10/abrantes-de-ontem-e-de-hoje-iii.html
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ANO 2009 MÊS NOVEMBRO
ASSUNTO: DIÁRIO DE UM COMBATENTE (I)
LINK: http://coisasdeabrantes.blogspot.com/2009/11/diario-de-um-combatente-i.html
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ANO 2009 MÊS DEZEMBRO
ASSUNTO: BOAS FESTAS BOGUISTAS

DIÁRIO DE UM COMBATENTE I

EXPEDIÇÃO A MOÇAMBIQUE (1916)
Por: José Manuel d’Oliveira Vieira
(Artigo publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 270Abr2008)

“…ordeno a V. Ex.ª faça directa e telegraficamente Lisboa pedidos necessários mobilização de forças…”
Assim dizia o telegrama enviado pelo Governador de Moçambique para Comandante da expedição portuguesa, quando tomou conhecimento da declaração de Guerra da Alemanha a Portugal, no dia 9 de Março de 1916.

Mapa de Operações 1916

Um mês e nove dias depois (19 de Abril de 1916), já a 5ª Bateria Expedicionária a Moçambique do Regimento de Artilharia de Montanha* da qual fazia parte o Sargento Alfredo Alves da Silva se encontrava na foz do Rovuma, Kionga.

Alfredo Alves da Silva

Kionga - Trincheira 1916

Os acontecimentos que a seguir se descrevem fazem parte de uma velha agenda de 1912, reconvertida para 1916. Nesta “agenda” e nas “cartas – mensagens” guardadas durante 92 anos, Alfredo Alves da Silva, que foi Sócio nº 133 da Sub-Agência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes, anotou o inferno que foi combater os alemães nas margens do Rio Rovuma, quando Angola e Moçambique estavam nos projectos expansionistas da Alemanha:

DIÁRIO

ABRIL
19 - Marcha da divisão d’artilharia 7cm m/82 para Kionga**.
MAIO
1 - Marcha de Kionga para Namôto.
5 - Marcha de Namôto** para Namaca* com 1 peça para bombardear quartel e fábrica margem esquerda Rovuma, retirando à noite com chuva e passagem rio braço mar.
6 - Marcha de Namôto para o posto de Metchimo-Nachinomoca**, pelas 15h. Passagem pântano aproximadamente 1 km e 2 ribeiras, chegada ao posto pelas 20 h (1 peça).
7 - Bombardeamento do quartel que fica defronte posto pelas 6 h (11 tiros g. b.) distância 1600-1700.
8 - Demos 2 tiros para o mesmo quartel alemão pelas 5h ½. A esta mesma hora ouviu-se grande tiroteio no posto de Nhica**, sabendo-se mais tarde que alemães tinham atacado mesmo posto com 2 metralhadoras e alguma infantaria como represália por termos ontem bombardeado o quartel.
9 - Do ataque que ontem houve em Nhica morreu 1 sargento e 11 feridos, prestando nossas forças (1 pelotão Infantaria 60 praças). Neste ataque apoderamo-nos de um preto que morreu a pouca distância do posto. Tinha arma Mauser de 1915 calibre é de 7,92.
16 - Ouviu-se pelas 6 h aproximadamente 6 tiros em 2 grupos, julgando nós que os alemães quisessem atingir a vedeta nº 3 (1).
21 - Como medida de precaução (toda a companhia) indígena estava em armas para de pronto ocupar as trincheiras do lado que fosse atacado todos os dias das 3 ½ para as 4 ia juntamente com guarnições peça (4 homens) para a trincheira.
27 - Ouviu-se neste posto grande bombardeamento pelas 6 h, sabendo-se mais tarde que era o “Adamastor” (2) e “Chaimite” (3) que estava metralhando p/posto fronteiriço da Namaca (Quartel e Fábrica) (4).
28 - As peças de 7 cm bombardearam o quartel e fábrica, ao bombardeamento os alemães não responderam o que dava a impressão de que aquele posto estava desguarnecido.
29 - Novo bombardeamento para o mesmo posto alemão, a seguir a isto atravessava o rio 2 lanchas, a da frente com indígenas a da retaguarda com europeus, os alemães que se achavam entrincheirados deixaram aproximar as lanchas e abriram fogo com metralhadoras, havendo muitos feridos, 1 capitão metralhadoras Alpoim desaparecido, 3 tenentes feridos gravemente, 1 sargento morto, isto é o que consta. Este desastre foi motivado por alguns oficiais afirmarem que não existia alemão algum no posto.
31 - Seriam quase 23 horas a vedeta nº 8 deu um tiro numa hiena, por ela se ter aproximado bastante da mesma vedeta.

França 1918

JUNHO
4 - Ouvi dizer que alemães tinham 1 peça vinda do interior, comandante da Chaimite e 1 guarda marinha prisioneiros dos alemães.
5 - Da 1 e meia para as 2 h ouviu-se uns tiros dados por uma vedeta, sabendo-se mais tarde que era um cavalo-marinho. (É claro que cada um foi ocupar os seus postos nas trincheiras retirando ½ h depois quando se soube a causa dos tiros).
6 - Pelas 5 ½ ouviram-se uns tiros do lado dos alemães ao que uma força que estava no posto nº 1 respondeu, nesta ocasião também se ouviu metralhadora, este tiroteio foi devido a guarda ao posto se pôr um pouco a descoberto do caminho na ocasião que recolhia ao acampamento.
7 - Repetiu-se a mesma cena mas com menos fogos. Pelas 20 h chegaram a este posto (Nachinamóco) duas peças de marinha de 37mm.
10 - A peça que aqui se achava desde 6 de Maio findo retirou para Namaca a fim de se incorporar na bateria, com excepção do pessoal. De manhã foi encontrado morto o cavalo-marinho, aquele que uma patrulha e não a vedeta fez fogo no dia 5. Pelas 7 ½ passou neste acampamento um pelotão de infantaria a cavalo G.R. Lourenço Marques para Namôto.
13 - Das 4 para as 4 ½ ouviu-se grande bombardeamento para os lados de Namaca que se prolongou até às 11 h, sabendo-se mais tarde que os alemães tinham atacado o posto pela retaguarda ocupando trincheiras e claro que tudo estava dormindo a esta hora o que não deve ser, pois que em geral eles atacam sempre quando amanhece, em conclusão deste assalto ficaram mortos dois soldados de artilharia e um de infantaria, levando os alemães como prisioneiros um tenente de infantaria e alguns soldados de infantaria, dizem que as mortes foram por meio de bomba.

15 - Muito próximo das 5 h ouviu-se grande troca de tiros no posto nº 1 indo uma força de comando de oficial em auxílio da força que está no posto, mas o ataque foi pequeno pois que os alemães logo que fazem partida não se fazem esperar regressam logo à outra margem, neste ataque ficou o 1º sargento (Mendes de infantaria) ferido nas nádegas tendo de abandonar o posto, porque a maioria dos saldados não sabendo fazer fogo, pois quando o fazem escondem a cabeça e nem chegam (algum..!) a fazer pontaria.
17 - Seriam 0,h30 uma das vedetas deram um tiro numa das praças da patrulha de ronda motivado por a mesma patrulha trocar o itinerário do giro. Pelas 5 h pouco mais ou menos ouviu-se grande tiroteio no posto nº 1 marchou uma força de oficial em auxílio, mas triste é dize-lo encontrou 3 mortos 1 cabo europeu e 2 indígenas 3 feridos e 1 dos homens da patrulha de ronda foi feito prisioneiro, tanto dos mortos como dos feridos os alemães roubaram os equipamentos e as armas. Foi preciso haver este desastre para acabar com o referido posto.
20 - Seis (6) espiões fuzilados, 1 reforço de sargento e 14 praças do 21.
24 - Pelas 4 ½ ou 5 h foi este posto atacado por uma patrulha (calcula-se pelo rasto encontrado) mas certamente mais à retaguarda estaria mais gente, mas como o quadrado (5) abriu fogo não se atreveram a aparecer, pois que havendo uma pequena troca de tiros retiraram.
(Neste dia estava com febre)
28 - Pelas 23 h chegaram a este posto 2 peças 7cm m/82.

Macau 1906

JULHO
1 -
Vindo um comboio de viveres de Namôto para Nahcinamóco, foi este atacado por um bando de boches na langua…! grande, por meio de emboscada, mataram 5 carregadores e levando alguns géneros, como represália bombardeamos toda a margem direita do Rovuma fazendo incidir o fogo onde haviam habitações.
(Achava-me com febre)
12 - Estive com febre, temperatura 38,7 injecção.
14 - Estive com febre, temperatura manhã 39,8, tarde 38,4 injecção.
15 - Estive com febre, temperatura 40,2 manhã, 38,6 tarde injecção.
17 - Estive com febre, temperatura 35,7 manhã.
22 -Pelas 7 h houve revista sanitária às praças europeias existentes no posto, sendo relacionadas algumas praças para serem presentes à junta em Kionga, em virtude de ordem telegráfica. Os oficiais da 19ª companhia deram parte de doente com excepção do tenente Eusébio e alferes médico. Seriam 18 ½ h os alemães do posto fronteiriço ao nosso fizerem uso de um holofote demorando a luz do mesmo entre as vedetas nºs 3 e 4.
23 - Seriam 1,30 uma vedeta pressentindo inimigo deu 2 tiros como alarme, 2 faces do quadrado fizerem fogo talvez durante 5’ não havendo ferimentos.
24 - Pelas 9 h pouco mais ou menos apareceu na margem direita do Rovuma 1 preto agitando uma bandeira branca, avançando também oficial alemão que queria parlamentar com comandante do posto para entregar 2 cartas d’oficiais prisioneiros. Neste dia nada d’anormal.

30/31 - Nada d’anormal. Estive com febres.
AGOSTO
1 a 7 - Nada d’anormal. Estive com febre.
8 - Seriam umas 20 ½ h ouviram-se distintamente 3 ou 4 leões até às 2 h. Estive com febres, mas mais lentas.
9 - Seriam 21 h tornaram-se a ouvir os mesmos leões até de madrugada. Pouco mais ou menos a esta hora da margem alemã ouviram-se 2 tiros, havendo quem afirmasse que as balas tinham passado por cima do quadrado. Estive com febres, mas mais lentas.
10/11 - Febres lentas. Nada de anormal.
15 - Os alemães atacaram o comboio de viveres na langu… (!) do Namôto frente este posto, matando 1 soldado branco, 1 preto e carregadores ferindo vários outros pretos.
23 - Marchei de Nachinamóco para Namôto, seriam 12 h aproximadamente, chegando ao meu destino pelas 18 h bastante fatigado.
24 - Foi o posto de Nachinamóco atacado desde o escurecer até às 21 h.
26 - Saindo de Namôto um camion com doentes para Kionga, foi este atacado pelos alemães, atirando-lhe uma bomba que inutilizou o depósito de gusa… (!).
Depois desta data não foram encontrados mais detalhes na agenda. É provável que Alfredo Alves da Silva tenha feito o percurso inverso, Namôto-Palma-Porto Amélia, onde embarcou com destino à Metrópole, para fazer parte do Corpo Expedicionário Português a França, onde esteve com a sua bateria de artilharia de montanha (m/82).

* - Artilharia de Montanha esteve estacionada na Castelo de Abrantes e em Penamacor.**- Kionga ou Quionga, Namôto ou Namoto, Namaca, Nachinamóco ou Metchimo-Nachinomoca, Nhica, foram aquartelamentos e acantonamentos militares na foz e margens do Rovuma (Norte de Moçambique).
(1) - Vedeta (soldado combatente destacado num posto avançado com a missão de observar a aproximação do inimigo).
(2) - Adamastor (cruzador, navio de guerra português)
(3) - Chaimite (canhoeira, navio de guerra português).
(4) - Fábrica (fábrica alemã de preparação de algodão - África Oriental alemã).
(5) - Quadrado (aquartelamento militar com trincheiras, em forma de quadrado).

NOTA: A parte II deste Diário será publicado no mês de Janeiro 2010

ABRANTES DE ONTEM E DE HOJE... (III)

ESTA É UMA NOVA PÁGINA DE ABRANTES DE ONTEM E DE HOJE... PARA VER PARTE I E II CLIK NO LINK ABAIXO INDICADO:
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IGREJA DE S. VICENTE (Monumento Nacional) - Não sendo conhecida a data de construção da Igreja de S. Vicente, é no entanto conhecida a sua existência desde o Século XIII, data em que decorreram obras no templo. O aspecto que hoje apresenta foi-lhe dado no reinado de D. Sebastião (século XVI). No seu interior, além da “Arte Sacra” é de realçar o seu imponente “Órgão” e “dois painéis de azulejos com as naus de S. Vicente”. Segundo a lenda, os corvos acompanharam do Algarve a Lisboa a nau com os restos mortais do Mártir. “Para esta Villa veio um dente do dito Santo”. (Pg53 MHNVA)

ERMIDA DE S. JOÃO DOS BEM CASADOS ALFERRAREDE VELHA - ABRANTES

Por: José Manuel d’Oliveira Vieira, Doutor Joaquim Candeias Silva, João Luís e Manuel Martinho
(Publicado “Jornal de Alferrarede” Nº 267JAN2008) – Foi este artigo alterado para o blog “COISASD’ABRANTES”


O Padre António Carvalho da Costa (1712), autor da Corografia Portugueza e Descripçam Topografica do Famoso Reyno de Portugal, com as noticias das fundações das Cidades, Villas, & Lugares…, no Tomo Terceiro, Capitulo VIII, diz existir na Vila de Abrantes as Ermidas de Santa Eyria, Santa Anna, Santo Amaro, S. Sebastião, N Senhora do Sccorro, N Senhora da Ajuda, N. Senhora dos Remédios, Santo André, N. Senhora da Graça, N. Senhora das Necessidades, N. Senhora do Bom Successo, & S. João dos Bem-Casados em Alferrarede.
Destas doze Ermidas, templos cristãos secundários, normalmente localizados fora das povoações, em lugares ermos ou inseridos em propriedades particulares, que se encontram referenciadas no Tomo Terceiro, muitas já não existem, outras encontram-se em ruína ou para lá caminham e muito poucas merecem algum cuidado dos seus proprietários.
Erguida no local onde parece ter tido início a verdadeira Alferrarede, hoje Alferrarede Velha, na Rua da Aldeia, situa-se a ERMIDA DE S. JOÃO DOS BEM CASADOS.
Quem por lá passa não se apercebe da sua existência. Muitos dos moradores de Alferrarede Velha simplesmente ignoram o local onde a mesma está localizada. A única entrada, que dá acesso à porta da “Ermida de S. João dos Bem Casados” encontra-se coberta de silvas o que impossibilita a entrada na Capela.
Saber se havia ou não algum altar, inscrições ou datas que nos digam o ano da sua construção e se alguma estatuária ou fresco do S João dos Bem Casados lá existia foi para nós impossível de conferir. Ao fim de muitas tentativas chegou no mês de Dezembro a oportunidade tão esperada. Um dia, o Director deste jornal, o Doutor Candeias Silva e José Vieira foram ao local e depararam com a impossibilidade de verem alguma coisa. Assim, o Director deste jornal, contactou com o proprietário do imóvel e este facilitou a visita ao local. Com a ajuda do Presidente do Centro Cívico João Luís, conseguimos através de escadas e pelos buracos do telhado entrar naquele espaço que está em perigo de derrocada total. Claro que ficámos elucidados mas desconsolados. A Capela foi há muitos anos atrás transformada em depósito de um lagar e lá estão ainda várias talhas de azeite vazias. Parte da estrutura já caiu e dentro da Capela com abóbada, não vislumbrámos nem pinturas, nem altares, nem azulejos, nem outras coisas mais. A ruína é, por assim dizer, total. No entanto, as nossas investigações jornalísticas que já decorriam há vários anos, acabaram por nos levar à imagem de S. João dos Bem Casados que está em local que não vamos aqui identificar, para que não aconteça nada de desagradável ao nosso património religioso que tão maltratado tem sido. Juntamos, pois, essa imagem de S. João dos Bem Casados, outras da parte da frente da capela, outra do interior e outra da vista geral exterior.
Num extenso artigo do Professor Doutor Joaquim Candeias da Silva, publicado em Novembro de 2003 no “Jornal de Alferrarede”, sob o titulo “Dois importantes santuários antigos na Freguesia de Alferrarede (Senhora das Necessidades e do Bom Sucesso)”, é referida a existência da Ermida dos Bem Casados e da imagem de S. João dos Bem Casados, em uma quinta pertencente a António Soares de Almeida, residente na Vila de Abrantes.
Saber que a Ermida de S. João dos Bem Casados, nasceu e está perto de uma Ribeira, no local onde Alferrarede ergueu as suas primeiras casas, foi para mim uma surpresa.
Desconhecida de uma grande parte da população a Ermida dos Bem Casados, situada na Rua da Aldeia, tem vindo desde algum tempo a esta parte a despertar a atenção de muitos curiosos que ali se deslocam.
Antes que a Ermida se transforme num monte de entulho e se perca mais um pedaço da história onde Alferrarede teve a sua origem, bem poderiam os autarcas locais e municipais providenciar para que “ERMIDA” fosse restaurada bem como o “LAGAR” ali existente, fazendo-se neste o “MUSEU DO AZEITE”.


ERMIDA S. JOÃO DOS BEM CASADOS - ALFERRAREDE VELHA

CASA/ERMIDA SENHOR/A DOS REMÉDIOS E REDUTO MILITAR

Artigo autor José Manuel d’Oliveira Vieira
(Publicado “Jornal de Alferrarede” Nº 269MAR2008)


Antigas cartas ou plantas militares do Reino de Portugal, são hoje cada vez mais imprescindíveis para localizar edificações ou monumentos, que o desleixo transformou num amontoado de pedras e o tempo fez desaparecer.
Nas plantas, mapas ou publicações elaboradas pelas gerações de outrora, quase sempre é possível encontrar ou vir a encontrar o tesouro que procuramos.
No Tomo Terceiro do Famoso Reino de Portugal (1712), Capitulo VII, a páginas cento e oitenta e seis e seguintes, dedicado à Vila de Abrantes, consta ter havido uma Ermida com o nome de Nossa Senhora dos Remédios.
Examinados alguns mapas e plantas da antiga Vila de Abrantes, do início do XIX, a Ermida de nossa Senhora dos Remédios encontra-se localizada nas cartas, mas não é mencionada nas legendas, ao contrário de todas as outras.
Se em 1801 e 1810, cartas e plantas da Vila a dão como Ermida, já em 1817, aparece na “Planta da Praça da Povoação d’Abrantes”, como “Reduto de Nossa Senhora dos Remédios”.

Entre 1801 e 1817, foi a Ermida Sª dos Remédios transformada em “reduto militar”. Atendendo à primeira e última data (1801/1817), não é de excluir, que a transformação desta Capela em reduto militar, tenha algo a ver com as invasões francesas. A ser assim (não querendo meter a foice em seara alheia), o local onde a Ermida dos Remédios teve assento, poderá ter desempenhado um importante papel na defesa da Vila de Abrantes.
Ao consultar a pasta onde se encontra o livro (1), que me poderia esclarecer sobre este assunto, fiquei a saber que: a “Ermida Senhora dos Remédios” era afinal “Senhor dos Remédios”.

Terá existido na Vila de Abrantes, outra Ermida dos “Remédios”?
Não havendo outra opinião, e, dando crédito a uma certidão (1), requerida pela Irmandade do Senhor dos Passos, na Vila de Abrantes, a de 13 de Maio de 1764, a Ermida chamar-se-ia efectivamente Senhor dos Remédios e apenas terá existido esta, de acordo com o titulo que se transcreve: “Titulo da cappela instituída por Manoel Dias Lopes na Ermida do Senhor do Remédios fronteira a Cadeia desta Vª.
E da mesma forma deixo à Irmandade do Senhor dos Passos desta Vª quatrocentos mil (r) em dinheiro, ou fazendas como melhor parecer a meos testamenteiros, para q. a dita Irmandade pelos rendimentos destes mande celebrar uma Missa em todos os Domingos, e dias Santos do ano pela minha alma, e da dita minha mulher na Capela do Senhor dos Remédios, q. tambem serve de Cas(sa!)(2), e fica fronteira a Cadeia Secular(3) desta Vª.; para que também os presos della tenham esse beneficio, e consolação, e a (…dª…) Irmandade fique mais aliviada da despesa, q. costuma fazer com as esmolas das Missas, q. na mesma Capella, e nos dias referidos manda dizer”

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“Assim consta da certidão, q. a (…dª…) Irmandade requereo, e se lhe mandou passar em treze do mês de Maio do anno de mil setecentos, secenta, e quatro; a qual se conserva no arquivo com os mais títulos”
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Da Ermida do Senhor ou Senhora dos Remédios nada resta senão um amontoado de pedras dispostas de forma circular, como se nos dissesse ter sido ali que teve assento a casa (!) Capela e Reduto Militar. Para melhor compreensão do lugar onde teve assento a Capela, veja-se parte de uma planta da antiga Vila de Abrantes (1817).

(1) AHCA “Capela de Nª Sr.ª dos Remédios 1795/1834”
(2) A poucos metros do local há vestígios de ali ter existido um poço, que serviria a casa/ermida ai existente.
(3) Em 20 de Julho de 1604, foram os presos Civis separados dos militares e transferidos para a nova Cadeia situada na Câmara. Por muitos e mais anos, continuou a cadeia do Castelo de Abrantes a albergar presos militares. Em 17 de Janeiro de 1812 o Coronel João Lobo Brandão de Almeida solicitou a D. Miguel Pereira Forjaz, o seguinte: “… para que me fossem enviadas as cem grilhetas...” … porem agora já não há mais meios se poder continuar, e como estão a chegar, continuamente sentenciados, aos trabalhos públicos; rogo a V. Ex.ª de ordenar, que me sejam enviadas, com toda a brevidade, a quantidade acima mencionada”.(AHM/DIV/1/14/097/237)
Foto: “Jornal de Alferrarede”

ABRANTES - CVTº DE SANTO ANTÓNIO

Artigo autor José Manuel d'Oliveira Vieira
(Publicado "Jornal de Alferrarede" Nº 268 FEV2008)
LOCAIS ONDE TEVE ASSENTO O
CONVENTO DE SANTO ANTÓNIO DOS PIEDOSOS
1º CONVENTO
STº ANTÓNIO VELHO DA RIBEIRA DA ABRANÇALHA – N. SRª DA LUZ
Reinando em Portugal D. João III, D. Lopo de Almeida, 3º Conde de Abrantes, fundou, no ano de 1526, no sítio onde hoje se encontra a Ermida de Nossa Senhora da Luz, o primeiro Convento de Santo António dos Piedosos que se conheceu em Abrantes.
Ermida pequena, condições precárias, local insalubre, os Franciscanos após 45 anos de permanência no cimo da Ribeira da Abrançalha decidem procurar outro lugar.
Obtida em 1571 a licença de D. Duarte de Almeida, filho do 2º Conde de Abrantes, para vender a Quinta de Nossa Senhora da Luz de Santo António Velho da Ribeira da Abrançalha, os Frades mandam construir em “Vale de Rãns” outro Convento, rejeitando a oferta da população de Abrantes, de um terreno, dentro da Vila, próximo da Fonte do Ouro, situado no Largo de Stº António em Abrantes.
2º CONVENTO
QUINTA DA ARCA – VALE DE RÃS/CHAINÇA
O sítio que os Frades escolheram para o novo Convento foi na ribeira, chamada de Vale de Rãs, onde se dizia as bicas, por uma de muita água que, atravessando fazendas, corria para os olivais para benefício público. Com o produto da venda do Convento da N. Senhora da Luz, hortas e esmolas da população, comprou-se novo terreno e deu-se início à construção do segundo Convento de Santo António dos Piedosos, em Vale de Rãs, contra a vontade, já anteriormente manifestada dos moradores da Vila de Abrantes.
Possuindo melhores condições que o anterior, situado em terreno “plano”, dai chamar-se Chainça, foi então ordenada a transferência da Ribeira da Abrançalha, para a Quinta da Arca, em meados do Século XVI (1571).
Património classificado como valor concelhio (Decreto n.º 129/77, de 29 de Setembro), as ruínas do antigo Convento de Santo António ainda apresenta, traços visíveis do que foi a enfermaria, a hospedaria um dormitório (de que há paredes e janelas das celas), a sacristia, via-sacra e paredes da Igreja.
Enquadrado por habitações recentemente construídas, nos terrenos em redor do antigo Convento, ainda se pode ver o que resta do aqueduto que para ali conduzia a água.
Na Quinta da Arca, à semelhança do que aconteceu na Ribeira da Abrançalha, os Frades foram assolados por várias doenças.
Sem outras alternativas que não fossem os “chãos de Abrantes”, os Frades resolveram aceitar a oferta e construir no monte da Vila, o derradeiro e último Convento de Santo António.
3º E ÚLTIMO CONVENTO DE SANTO ANTÓNIO
LARGO DE STº ANTÓNIO – ABRANTES
No dia 7 de Maio de 1600, o Bispo da Guarda, D. Nuno de Noronha, concedeu a mudança e também a trasladação dos ossos do Conde e Condessa, primitivos fundadores e os Religiosos falecidos, para o terceiro e último Convento de Santo António do Piedosos, construído em dois pedaços de terra, juntos à Fonte do Ouro.
No dia 15 de Maio de 1601, foi lançada a primeira pedra no alicerce da capela-mor do Mosteiro de Santo António, que se faz nos Barreiros, dizendo primeiro Missa de canto de órgão, e pregação em Santa Iria, e dahi fiserão Procissão aos alicerces.
O Convento foi renovado no ano de 1714, para cujas obras concorreram os moradores desta Vila e El Rei D. João V.
Com a extinção das ordens religiosas, em 1834 (ver caixa), o Convento ficou devoluto e as ruínas deste e as da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco foram dadas à Câmara Municipal de Abrantes, por Carta de Lei de 10 de Janeiro de 1859. Demolido o Convento de Santo António restou uma cisterna que ainda se pode ver no sítio onde se erguia o definitivo Mosteiro.
Da Igreja de S. Francisco, que ficava pegado ao Convento de Santo António, sabe-se que teve princípio no ano de 1717 e que estava concluído em Sábado de Aleluia, 12 de Abril de 1721 e que neste dia, foi benta pelo Reverendo. A Fonte do Ouro e um poço que se situavam mais ou menos no local onde foi construída a Igreja de S. Francisco, devido à má qualidade da água, foram tapados.
Demolida a Igreja de S. Francisco, foi ali edificado, em 1880, o Matadouro Municipal. Desactivado, foi este transformado em Centro de Divulgação de Tecnologias em 22 de Novembro de 2001.
Fotos: “Jornal de Alferrarede”
Fontes:“Corografia Portuguesa do Famoso Reino de Portugal do Padre António Carvalho da Costa de 1712”. “Memória Histórica da Notável Vila de Abrantes de Manuel António Morato e João Valentim da Fonseca Mota pg. 94/ 95/96”.

O Convento de Santo António e a Igreja de S. Francisco Após a extinção das Ordens Religiosas em 1834
No dia 20 de Março de 1834, António Joaquim do Couto e Abreu, João Freire Temudo Fialho de Mendonça, o guardião e o presidente do Convento de Santo António são presos por manifestarem ideias constitucionais. No 19 de Maio as tropas de D. Miguel, compostas por 3.000 homens, abandonam a Vila, encravando armamentos e destruindo munições. Levam como reféns o guardião e o presidente do Convento que libertam nas proximidades de Bemposta. Ainda no ano de 1834, no dia 26 de Julho, ficou estabelecido no extinto e arruinado Convento de Santo António o Hospital do Regimento de Infantaria Nº 18, aquartelado na Vila de Abrantes. O Corpo de Sapadores que também esteva aquartelado neste Convento deixou a Vila de Abrantes no dia 25 de Outubro de 1846. Em 1859, no dia 10 de Janeiro, são entregues à C.M.A. as ruínas do Convento de Santo António e da Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco, que toma posse delas em 9 de Dezembro. Em 1860, o matadouro municipal deixa de funcionar no Forte de S. Pedro e passa a ocupar a Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco, no local onde hoje se encontra o Edifício Pirâmide – Centro de Divulgação de Tecnologias de Abrantes (Cronologia de Abrantes do Século XIX pg.36/37/63/82/86, de Eduardo Campos).

FORAL DA RIBEIRA GRANDE - AÇORES DADO EM ABRANTES NO ANO 1507

Artigo autor José Manuel d’Oliveira Vieira
(Publicado "Jornal de Alferrarede" Nº 264OUT2007)

A fome, a seca e a peste assolavam Portugal, quando D. Manuel I instalou a sua corte em Abrantes.
Num período não muito longo, entre 1506 e Outubro de 1507, durante a estadia da corte de D. Manuel em Abrantes, aqui foram criados documentos unificadores de carácter estatal que tiveram repercussões em lugares tão distantes como os Açores.
A Festa do Foral, que se realiza anualmente na Cidade da Ribeira Grande, Açores, proporciona aos visitantes um recuo no tempo, transportando-os à época medieval, com torneios a cavalo, mostra de armas, venda de escravos, comes e bebes, ofícios, falcões e cobras.
Com este regresso à época de quinhentos, alguns ribeiragrandenses mais novos, prováveis descendentes de abrantinos que ali desceram em 1508 (a), os que ali se fixaram recentemente e os visitantes, ficam a saber ter tido origem em Abrantes, no dia 4 de Agosto de 1507, o Foral que elevou o povoado da Ribeira Grande a “Vila”, deixando esta de estar sob a jurisdição da vila de Vila Franca.
A tenacidade e preserverança deste povo dos Açores levaram a que El-Rei D. Manuel I, a partir de Abrantes, atribuísse “Foral” à Ribeira Grande.
Desconhecido o paradeiro do documento original, com a real concessão de aforamento, Daniel de Sá, escritor, e o pintor Gilberto Bernardo (Açores), fizeram a reconstituição do Foral Manuelino.
Pelo significado que tem para conhecimento da "história local de Abrantes", transcreve-se o seu texto:
"Dom Manuel, por graça de Deus rei de Portugal e dos Algarves de aquém e de além mar em África.
A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que havendo nós respeito ao que nos enviaram os moradores do lugar da Ribeira Grande, na nossa ilha de São Miguel, por Lopo de Ares, e por aquele lugar ser já muito povoado como por ter muito boa água da ribeira e pelos muitos rendimentos com que dele os moradores acrescentam a nossa Real Fazenda, e porque nos praz de vontade própria assim fazê-lo, temos por bem e por razão prover de maneira que se faça como serviço de Deus e nosso bem e dos moradores do dito lugar da Ribeira Grande.
E como por ser tão longe da vila de Vila Franca de que até ao presente era termo e jurisdição, e por dele a ela haver assim grande distância de caminho com que os moradores recebem grande fadiga e opressão em serem a ela súbditos e sujeitos por haverem de ir cada dia tão longe pelas coisas da justiça: Temos por bem e fazemos do dito lugar da Ribeira Grande vila e que para sempre assim seja.
E a tiramos e desembargamos de ser do termo da dita Vila Franca e de sua jurisdição como até ora foi.
E lhe damos por termo uma légua ao redor, contada do pelourinho por todas as partes em redondo.
E havemos por bem que faça seus oficiais na maneira que os fazem as outras semelhantes nossas vilas semelhantes a ela e mais não obedeçam os seus moradores à dita vila de Vila Franca porque de toda a sujeição a ela os havemos por livres e desobrigados.
E mandamos ao nosso capitão e oficiais da Vila Franca que os hajam disso escusos e mais não os constranjam como moradores do seu termo pois o não são.
E fazemos jurisdição sobre si, e queremos e determinamos que daqui em diante o dito lugar da Ribeira Grande seja vila e assim como o é a dita Vila Franca. E paz-nos que fique em todas as vizinhanças e liberdades que tinha com a dita de Vila Franca, e quaisquer outros privilégios que tivesse por ser termo da dita vila.
E se aqui falecem outras cláusulas e solenidades de direito nós lhas havemos aqui por postas e expressas e declaradas.
E porém mandamos aos moradores das outras vilas, e a quaisquer outros juizes, justiças, oficiais e pessoas a que esta carta for mostrada e o conhecimento dela pertencer que a cumpram e guardem, porque assim é nossa mercê e vontade de fazer o dito lugar vila, como dito é e queremos que assim seja.
E por certidão e firmeza disso lhe mandamos dar esta carta por nós assinada do nosso selo pendente.
Dada em Abrantes a 4 dias do mês de Agosto. Afonso Mexia a fez, ano de mil e quinhentos e sete anos".

No reinado de D. Manuel I, muitos foram os documentos (conhecidos), dados no Paço de Abrantes: cartas, alvarás, cartas de “Dom”, cartas de “poder”, cartas de quitação e o “Foral” da Ribeira Grande.
A curiosidade e confessada ignorância sobre tal matéria, levou-me a solicitar à Câmara Municipal da Ribeira Grande auxílio sobre a história do “Foral”, para posterior publicação no “Jornal de Alferrarede”.
Recebida a “Revista da Câmara Municipal da Ribeira Grande”, com a história da então Vila e cópia da reconstituição do “Foral”, eis a mesma a ser partilhada com os nossos leitores. Na Praça Raimundo Soares Nº 15, 16 e 17, situava-se o antigo Paço Real (ver foto início página).

(a) Abrantes na Expansão Ultramarina – Subsídios Históricos (1415-1578) de Joaquim Candeias da Silva, pg.73.
*Agradecimentos: à Câmara Municipal de Ribeira Grande, Açores, por ter disponibilizado a Revista “500 Anos de História da Ribeira Grande”, enviada ao autor para publicação no “Jornal de Alferrarede” e á Dr.ª Filomena Martins, por nos ter informado relativamente há existência deste foral dado em Abrantes.