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MAESTRO HENRIQUE SANTOS E SILVA

Por José Manuel d’Oliveira Vieira
(Artigos Autor publicados Jornal de Alferrarede nºs 262AGO2007 e 268FEV2008 - alterados para blog)


RECUPERAÇÃO DE UM ESPÓLIO

Estavam destinados ao maior arquivo do Concelho de Abrantes, a “lixeira”.
Não tivessem sido resgatados a tempo, documentos considerados importantes na vida do Maestro Henrique dos Santos Silva e “Orfeon Abrantino Pinto Ribeiro” estariam hoje reciclados, prontos para um novo ciclo. Destinado à profissão de relojoeiro, aprendiz aos 20 anos de idade (assim escreveu seu pai num documento de recenseamento em 1920), este cidadão Abrantino cedo dedicou a sua mestria às artes, levando a que a “Cidade Florida”, fosse conhecida dentro e fora das nossas fronteiras.Filho de Alfredo Alves da Silva *, também ele ligado ao “Orfeon Abrantino” e de Delmira da Piedade dos Santos, Henrique dos Santos e Silva, nasceu no dia 18 de Setembro de 1910, na Freguesia de S. João Batista, Concelho de Abrantes. Depois de tanto ter dado à sua terra (06 Janeiro de 1934 até á data da sua morte 30 de Janeiro de 1981), ser recordado numa “Sala Museu” é a melhor forma de perpetuar a sua memória.
Depois de tudo já ter sido escrito e dito do Maestro, quem foi, o que fez, onde actuou, nada mais resta senão justificar a razão porque se escreve mais uma vez deste distinto músico, que durante meio Século foi reconhecido no meio musical do país. João Augusto, sabendo o interesse que tenho por velhos papéis, levou-me ao interior da casa que viu nascer o mestre Henrique. No chão, no meio de jornais sem interesse e em velhos baús apodrecidos pelo tempo, envoltos em muito pó, encontrei um pouco mais da história do “Velho Orfeon” e dos seus bastidores.Documentos e objectos pessoais do Maestro, óculos, caneta e isqueiro personalizados a centenas de partituras e manuscritos sobre o “Orfeon Pinto Ribeiro”, alguns gracejos políticos da vida Abrantina (escritos e impressos) vividos na época, de tudo um pouco foram encontrados.
Das muitas peças recuperadas ao lixo, destacam-se as operetas: “A Herança do Capitão-mor” e o “Milhafre” que ficaram na memória de quem assistiu e actuou no antigo “Orfeon”.
Um “Hino Marcha”, dedicado aos “Combatentes da Grande Guerra de Abrantes” e destinado a realizar fundos para o futuro Monumento aos Mortos da Grande Guerra é outra das peças encontradas. Várias são as partituras especialmente escritas e assinadas pelo Maestro Pinto Ribeiro, em exclusivo para o “Orfeão”.
Programas de espectáculos e recortes de Jornais da época (1929/1936) mostram quanto o Maestro Henrique Santos Silva deu em prol da cultura a esta terra.Num dos livros, onde constam os adereços e material destinado às peças de teatro que se realizavam com assiduidade em Abrantes (Cine Teatro da Misericórdia e Teatro Taborda), fica-se a saber ter existido um cenário com a Praça de Touros de Alferrarede (Quinta do Bom Sucesso), feito pelo pintor Abrantino José Paulo Fernandes Júnior, que provavelmente se encontrava no Teatro Taborda. Não sendo este espólio de desprezar, muito menos será “uma salva de prata do Orfeão Pinto Ribeiro ao Regente H.S.S. do Grupo Coral 6-XII-51”, “uma batuta inteiramente de prata dos “Antigos Orfeonistas do Maestro H.S.S. na reaparição do Orfeão Abrantino Pinto Ribeiro 6-XI-951”, “uma cigarreira de prata personalizada com o nome Henrique”, “uma cigarreira (porta tabaco) de prata personalizada com o monograma HS”, “um porta batuta e batuta de madeira”, “uma batuta de madeira com o punho de prata com a inscrição H.S.S. 25-XII-935”, “duas batutas normais”, lamirés, um “valioso” violino, com etiqueta original do fabricante Italiano “Nicolaus Amatus – Fecit – In Cremona 1646” (ver caixa - "O VIOLINO"), este, o mais eminente membro da família “Amati” (1596-1684), ao qual consta ter tido como aluno, António Stradivarius (1644-1737), o mais célebre construtor de violinos de todos os tempos.De todo este espólio sobressai igualmente, uma profusa e valiosa colecção de discos em vinil, de música clássica, que eram para o Maestro a “menina dos seus olhos”. Mostrando interesse neste espólio (após proposta), a Vereadora da Cultura Dr. Isilda Jana, envidou esforços para que documentos e objectos pessoais do Maestro, dispersos em três locais diferentes, fossem entregues pelos doadores, D. Maria Manuela de Jesus Campos, Maria Fernanda Janeiro, João Augusto e José Manuel d’Oliveira Vieira, o que aconteceu no dia 24 de Janeiro de 2008. De real importância, o espólio agora entregue ao Director da Biblioteca António Botto, Dr. Francisco Lopes – Arquivo Histórico de Abrantes, composto por peças únicas, depois de inventariado e catalogado por pessoal especializado do A.H.C.A. será, apresentado em sessão pública.
Com esta iniciativa, Abrantes que já deu o nome do distinto Maestro Henrique Santos Silva a uma Rua da cidade, verá assim salvaguardada uma parte importante do seu espólio.Além das peças já referenciadas, foi ainda oferecido à Biblioteca de Abrantes, uma colecção de bengalas e dois álbuns “orientais”, com fotos e postais raríssimos, que foram pertença do pai do maestro, Alfredo Alves da Silva, também ele ligado ao “Orfeon Abrantino” como dirigente e coralista durante muitos anos. Álbuns, fotos e postais, referem-se aos anos 1900/1901 e 1905/1907, quando Alfredo Alves da Silva esteve em Macau e França (I Grande Guerra).
Em falta fica a peça que mais gozo dava ao distinto maestro: o Piano.
Devolvido à comunidade, todo este espólio irá servir para comemorar o aniversário do nascimento do Maestro, que se fosse vivo faria 100 anos no dia 18 de Setembro de 2010.
*Numa velha agenda Alemã, Alfredo Alves da Silva (pai do Maestro), descreve relatos diários dos bombardeamentos recíprocos, durante a I Grande Guerra, na fronteira a Norte de Moçambique (Rio Rovuma), entre Portugueses e Alemães. Este diário e cartas, por serem inéditos e escritos por um militar da Guarnição de Abrantes, sócio nº 133 da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes. Em tempo oportuno irão estes relatos de guerra ser publicadas numa página de “COISASD’ABRANTES”.
"O VIOLINO"
Não tocava um violino Stradivarius, no entanto, a forma como o Maestro fazia eclodir o peculiar som ao seu violino “Nicolaus Amatus – Fecit - In Cremona 1646” é descrito assim por A. Santos no "Jornal de Abrantes nº 4884, pág. 7 de 28-3-97":
“Henrique Santos e Silva, como violinista era um executante que pedia meças a qualquer bom profissional. Por isso, foi convidado para primeiro violino da então grande Orquestra da Emissora Nacional. Mas quê, sair de Abrantes? Nem pensar. E assim se perdeu um elemento de grande valor.
Alves Coelho (filho), inspirado e famoso compositor, era um pianista espectacular (despia e vestia o casaco a tocar piano), mas não era um pianista clássico para poder acompanhar correctamente o violinista sério que era Henrique Silva e este dizia-me que nunca se sentira tão envergonhado por causa do acompanhamento que tivera”
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ABRANTES - AQUI ACABOU A HISTÓRIA...

UMA PLACA INCÓMODA
NA PRAÇA DA REPÚBLICA
(NO MONUMENTO AOS M.G.G. DESDE 1948)
Por José Manuel d’Oliveira Vieira – Adepto do Sporting
(Artigos Autor publicados "Jornal de Alferrarede" nºs 253/254 de 2006 e 269 de 2008, alterados para este Blog)
PLACA I
“No dia 20 de Junho de 1948, esteve em Abrantes uma significativa caravana do Sport Lisboa e Benfica, associando-se ao 32º aniversário do Sport Lisboa e Abrantes”*.
Para comemorar o evento, foi colocado na base do Monumento aos mortos da Grande Guerra 1914/1918, uma placa com a seguinte inscrição:
“DIA DO BENFICA EM ABRANTES
Homenagem da C.A.
Ao
S.L. e Benfica 20/6/1948”
Após cinquenta e oito anos, no dia 30 de Setembro de 2006, foi descerrada no local onde se encontrava a placa do Benfica uma outra que assinala o restauro do monumento.Mudam-se os homens, mudam-se as vontades.
O que nunca poderá ser mudado é o dia 20 de Junho de 1948. Além da homenagem feita pela caravana benfiquista ao mortos da Grande Guerra, a Câmara Municipal de Abrantes homenageou os visitantes no Jardim do Castelo, com um magnífico painel gigante, térreo, com o emblema do clube – feito de flores.Mudam-se os homens, mudam-se as vontades e por vezes até estes mudam de cor.
Quem assistiu ao programa “A Alma e a Gente”, do Prof. José Hermano Saraiva, RTP2, no dia 1 de Outubro de 2006, bem poderia ter aprendido como história e desporto, fazem parte da memória colectiva de uma Nação.
Depois de ver e ouvir o professor e historiador José Hermano Saraiva, preleccionar sobre o “Club Internacional de Football” lembrei-me de ter visto em tempos a fotografia de um abrantino, combatente da Grande Guerra 1914/1918, envergando a camisola desse clube.Refiro-me como é evidente ao Dr. António Augusto da Silva Martins, campeão internacional de tiro, com estátua no Jardim do Castelo, e, em cuja base se encontra uma placa de homenagem da“Sociedade de Tiro N.º 2” (Antigo Grupo Pátria).
PLACA II
“Colocada durante a noite”, “conhecer a pessoa que a colocou”, “não ser do conhecimento da Câmara de Abrantes (C.A.)”, são os disparates mais ouvidos por quem não é de Abrantes e desconhece em absoluto a verdadeira história desta “placa”.
Para que não haja desconhecimento eis como tudo se passou:
As festas do 32º aniversário do Sport Lisboa e Abrantes tiveram início no dia 5 de Junho de 1948, com a entrega do Estandarte do S.L.A (Sport Lisboa e Abrantes), peça de seda, bordado a ouro pela Senhora D. Guiomar Pombo Fernandes, a mesma que bordou o primeiro estandarte da Sub-Agência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes.
O “Jornal de Abrantes” noticiava assim os acontecimentos: “Com chave de ouro abriram as festas com a Palestra e demonstrações de patinagem artística e cómica por Edite Cruz e Germano de Magalhães, realizadas no Claustro Manuelino do Convento de S. Domingos, Quartel de Infantaria 2…”
“Frades artistas, que os teve e bons a Ordem de S. Domingos, se voltassem teriam apreciado aquela festa”
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“Quartel dos Bombeiros”, “Ringue de patinagem (do Benfica)”, “Cine Teatro” “Jardim do Castelo” e outros locais de Abrantes, foram palco de actividades desportivas e palestras, alusivas ao desporto, que se prologaram até ao dia 28 de Junho.
O dia mais esperado pela população da cidade de Abrantes foi, sem dúvida, o dia 20. Neste dia de Junho, chegou ao Largo de Santo António a grande caravana do Sport Lisboa e Benfica.
Ruas engalanadas, a caravana dirigiu-se de imediato à Câmara Municipal de Abrantes.
Na Câmara – “Em sessão solene de boas vindas, com autoridades civis e militares, funcionalismo, na Sala das Sessões deram entrada a Direcção do Sport Lisboa e Benfica...” “Fez um discurso de saudação o Presidente da Câmara Sr. Capitão Machado, que deu aos visitantes as boas vindas em nome da cidade…” “Agradeceu o Sr. Costa e Sousa, Vice Presidente do Sport Lisboa e Benfica…” NOTA: Não reparem no erro da legenda da foto em baixo: Deve ser "entrar" e não "entar".

Romagem aos mortos – “As pessoas que assistiram à Sessão e a Caravana que en­chia a Praça dirigiram-se ao jardim do Rossio onde está o Monumento aos Mortos da Guerra e dispostos os ciclistas em parada foi colocada uma placa, com o emblema do Benfica, no monumento, apreciando e agradecendo o gesto dos Benfiquistas o Sr. Coronel Abel Zúniga, Comandante Militar de Abrantes. Seguidamente foram ao jardim do Castelo a depor um ramo de flores no busto do cirurgião e desportista falecido Dr. António Martins”.

Almoço e descanso – “Foi o Jardim do Castelo o sitio escolhido para os visitantes comerem os seus farnéis, aproveitando as sombras, gosando o panorama extenso que d'ele se desfruta e repousando algum tempo.

Foi muito admirada e elogia­da uma linda placa de flores com o emblema do Benfica e uma saudação, que o jardineiro Simão Vieira(1) numas horas, de­lineou e fez e que na verdade era digna de ver-se. Este funcionário da Câmara, a que várias vezes aqui nos temos re­ferido com os elogios que bem merece é dos que sabem com­preender a responsabilidade que cabe a Abrantes em manter o seu titulo de Cidade Florida, pois não estaria certo uma ci­dade assim baptisada sem um bom jardineiro como Simão Vi­eira. Podemos afirmar que esta placa foi uma das coisas que muito sensibilizou os visitantes, pela delicadeza que representa”.
Por tudo o que se encontra escrito, conclui-se: a “placa” não foi “colocada durante a noite” mas sim à luz do dia em homenagem aos “combatentes”, é propriedade da Câmara de Abrantes (C.A.) e, esteja onde estiver, apenas a Câmara poderá dar destino à mesma.
Não repor a “placa” é esquecer parte da história de Abrantes.
Repor a “placa”é continuar a lembrar a história da nossa terra: “Desporto”, “Combatentes da Grande Guerra” e “Cidade Florida”.

PLACA III

A notícia de que Eusébio e Luís Filipe Vieira foram recebidos no Parlamento Europeu (PE), em Bruxelas, no dia 12 de Fevereiro de 2008, para a inauguração da exposição: “Mais de 100 anos de Lenda”, trouxe à memória a triste ideia que tiveram em retirar do Monumento aos Mortos da Grande Guerra 1914/1918 a “placa” de homenagem de um Clube que visitou a Cidade Florida em 1948.
Duas cidades, Bruxelas/Abrantes:
Bruxelas – A placa do Benfica, oferecida ao Parlamento Europeu, pelo senhor Luís Filipe Vieira, irá ser vista para todo o sempre em Bruxelas, enquanto houver P.E.
Abrantes – Continua a não ver a placa que homenageou uma cidade, o desporto o seu povo e sobretudo os bravos combatentes da Grande Guerra.

Com emblema e placa localizados, não será altura de repor parte da história do Monumento aos Mortos da Grande Guerra 1914/1918?
*Cronologia de Abrantes no Século XX – Eduardo Campos
Em itálico: Jornais de Abrantes nºs 2474/75/76, respectivamente de 13/20/27 de Junho de 1948.
Avô do autor deste artigo e de Carlos Vieira Dias que cedeu as fotos.

COMPANHIA DE MOAGEM DE ABRANTES "ANTIGA MOAGEM AFONSO XIII"

Por José Manuel d'Oliveira Vieira
Artigo Autor publicado "Jornal de Alferrarede Nº 252OUT2006" , modificado para este “Blog”

O industrial e monárquico João Augusto da Silva Martins, em homenagem ao Rei de Espanha Afonso XIII, inaugurou no dia 10 de Dezembro de 1903, no Rossio ao Sul do Tejo uma Fábrica de Moagem a que deu o nome de “Moagem Afonso XIII”. Nove anos depois (19 de Janeiro de 1912), passou esta moagem a designar por Companhia de Moagem de Abrantes.

Apesar dos tempos conturbados que se viviam na época, João Augusto da Silva Martins, natural de S. Miguel do Rio Torto, sobreviveu à Implantação da Republica (1910).
Não encontrando referências escritas sobre a antiga “Moagem Afonso XIII”, mais tarde “Companhia de Moagem de Abrantes”, nem sobre o seu proprietário, João Augusto da Silva Martins (falecido em 1924), há que lembrar parte da história desta fábrica, para que no futuro se saiba a importância que a mesma teve no desenvolvimento económico de Abrantes.

VÁRIAS PERSPECTIVAS DA FÁBRICA E FOTO INÉDITA

Terminada a laboração da “Companhia de Moagem de Abrantes SAR” e fechadas as instalações, o equipamento desta fábrica passou o alvo preferencial dos amigos do alheio.

EQUIPAMENTOS

Autorizados pelo senhor Eng. António Augusto de Figueiredo da Silva Martins, neto do proprietário João Augusto da Silva Martins, fundador da já extinta Companhia de Moagem de Abrantes, no dia sete de Agosto de 2006, dois elementos do “Jornal de Alferrarede” deslocaram-se às instalações da “Moagem”, no intuito de recolher elementos (fotográficos) do que ainda pudesse existir na fábrica, que a desaparecerem não mais poderão ser vistos.

FOTO ENCONTRADA NO ENTULHO DA FÁBRICA

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EMBALAGENS/ETIQUETAS

Já no local, confirmou-se de facto o vandalismo que varreu esta empresa.
A “Companhia de Moagem de Abrantes SAR”, que durante muitos anos foi uma das maiores empregadoras deste Concelho, foi despojada de peças e equipamentos, que aproveitadas, poderiam fazer parte de um museu industrial, a instalar nesta antiga fábrica, à semelhança do que acontece noutras localidades. Porta arrombada, salas destruídas, vidros e janelas partidas, máquinas esventradas, ausência de mobiliário e equipamento fabril, de tudo um pouco se vê nesta antiga fábrica.

INTERIOR DA FÁBRICA -LOCAL QUE ASSINALA A CHEIA DO TEJO EM 1979

COMPAMHIA DE MOAGEM DE ABRANTES - TÍTULO DE UMA ACÇÃO

Seringas, roupas e colchões conspurcados, fazem parte de um outro quotidiano. De todos os locais, na fábrica, aquele que pela sua beleza mais impressionou foi de facto o “laboratório”. Neste local da fábrica, encontra-se um “fontanário” rematado por um painel de azulejos, com a figura do Santo António, frente a uma fonte, como que a indicar-nos ter a fábrica sido construída nas redondezas de Santo António (Rossio ao Sul do Tejo).

LABORATÓRIO DA FÁBRICA - FONTANÁRIO

Tentativas de retirar da parede, painel e fontanário, apenas têm contribuído para mutilar esta obra de arte. No chão, um pouco por todo o lado encontram-se bocados de azulejos partidos.
Não menos importante é o chão deste “laboratório”, cujos azulejos (miniaturas), com motivos “regionais” estão a ser retirados do sítio onde foram inicialmente colocados. Ver este lindíssimo painel de azulejos, foi um dos motivos que nos levou a visitar aquela que foi uma das mais importantes empresas fabris deste Concelho. Pela importância e significado que porventura o proprietário atribuiu ao painel de azulejos, este, bem poderia ser recuperado e colocado em lugar público no Rossio ao Sul do Tejo. A não ser feito um museu industrial neste local nem haver projectos de recuperação do painel existente nesta antiga “Moagem”, ficam para a história do Concelho, as fotos que “José Vieira” e o “Jornal de Alferrarede” possuem.

HISTÓRIA DA SUB-AGÊNCIA DA LIGA DOS COMBATENTES DA GRANDE GUERRA E DO NÚCLEO DE ABRANTES 1923/2005

José Manuel d'Oliveira Vieira
(Autor Artigos publicados nos "Jornais de Alferrarede" nºs 223 a 230)

Capítulo IV
SÓCIOS DO NÚCLEO
O Núcleo da Liga dos Combatentes de Abrantes à data de Julho de 2005 tinha inscrito: oitocentos e setenta sócios combatentes, setenta e cinco efectivos, trinta e nove extraordinários, vinte e três apoiantes, um de Honra e um de Mérito, no total 1009 sócios.
ABRANTES E A SOCIEDADE CASTRENSE
A verdadeira relação dos Abrantinos com a sociedade Castrense, remonta ao século dezassete, vindo dessa data a união e tradições que ainda hoje se mantêm com os militares. Abrantes albergou as seguintes unidades militares: em 1798, parte da Legião do Marquês de Alorna; em 1809, dois regimentos de milícias; em 1810, um hospital militar; em 1813, Infantaria n.º 20; em 1833, um hospital militar; em 1836, Caçadores n.º 30; em 1841, Infantaria n.º 23; em 1844, Caçadores n.º 8; em 1851, Caçadores n.º 5 e Batalhão de Sapadores; em 1852, Caçadores n.º 6; em 1854, Infantaria n.º 11; em 1876, parte da Brigada de Artilharia de Montanha; em 1888, Caçadores n.º 8; em 1899, 12º Batalhão de Infantaria n.º 22 e desde 1918 o Regimento de Infantaria n.º 2, sendo esta a unidade que à mais tempo permaneceu em Abrantes.
Não esquecendo as Legiões, os factos falam por si. Foram os expedicionários que serviram a Pátria, em França, África e Cabo Verde e aqui constituíram família os responsáveis pela existência da Sub-Agência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra e de uma parte importante do povoamento de Abrantes.
MAQUETAS – MONUMENTOS
1º Projecto – O Monumento a erigir no Forte de S Pedro é uma grandiosa obra dos artistas Ruy Roque Gameiro, escultor, e Francisco Nogueira e E. Korrodi, arquitectos, foi classificada como a primeira do nosso país, exceptuando a que se encontra na Av. da Liberdade em Lisboa. O Diário de Lisboa, na época, incumbiu o seu redactor especializado na crítica de artes plásticas de fazer um artigo para o jornal, onde escreveu o seguinte: “Trata-se de uma obra notável, como simbolismo, como construção e como técnica. Ruy Roque Gameiro, aproximando-se da maneira de Bourdelle – gigantesca, planos simples, formas expressivas – interpretou em três figuras a ideia do monumento. A Pátria, altiva, fortíssima, de pupilas serenas e indómitas, invencível de energia, ao nível da estatuária grega, coroando, com a mão esquerda, um gladiador, meio ajoelhado e torcido a seus pés, apoiando-se a um escudo e brandindo uma espada curta. Esta figura, colocada, ao lado esquerdo da Pátria é, talvez, a do herói que não se rende, que mesmo na morte, luta ainda, coroando assim a vitória com sacrifício da vida. Do outro lado, à direita da Pátria, um soldado encostado a ela, mascarado para os gases, quase um fantasma, que marcha em frente, numa linha recta para o inimigo, despejando os tiros da espingarda.
“Tendo por pedestal o Forte de S Pedro situação admirável, dominando um panorama lindíssimo, qual sentinela vigilante de maravilhas sem conto, ficará sem duvida um dos melhores do País
Quem passe no caminho de ferro, quer na linha do Leste, quer na da Beira Baixa, verá como o concelho de Abrantes soube prestar homenagem aos seus Mortos da Guerra, porque forte e monumento vistos assim à distância, harmonizam-se num conjunto de grandiosidade que quem pela primeira vez os contemple há-de forçosamente soltar uma exclamação.
O monumento assentará numa base de 64 metros quadrados e terá 20 metros de altura, encimado por uma esfera armilar, em cristal, com um metro de diâmetro, que à noite será iluminado com foco eléctrico de grande intensidade. Sobre o pedestal, a figura da Pátria, com 4,50 m de altura, empunhando uma coroa de louros e rodeada por quatro soldados com 2 metros de altura.
A base será de granito rosa e a coluna também em granito mas escuro, tanto um como outro da região e que se encontra em abundância desde o Cabeço do Caneiro ao Tramagal. As figuras serão de cimento armado, com um preparado que lhes dará a aparência de bronze” (JA1497).
A concepção de Ruy Roque Gameiro é extraordinária. Tem volumes sobre-humanos, imponência indestrutível, grandeza ciclópica. É propositadamente rude, exagerada de volumes, sóbria como o exige o material onde foi esculpida: o cimento que endurece rápido, e só os grandes cinzéis podem trabalhar”.
Pelo seu elevado valor não foi possível executá-lo.
Não tendo sido esta a obra escolhida, ficou porém a maqueta no AHCA (Arquivo Histórico do Concelho de Abrantes) (fig. 18/18 a/18 b).

2º Projecto – “...A concepção do conjunto, grandioso, foi de uma rara felicidade , de para o seu autor Sr. Ruy Roque Gameiro, e a execução se os nossos louvores não são absolutos por, discordarmos num ou noutro pormenor, nem por isso deixou de nos agradar superiormente. Não será uma obra-prima mas é uma bela obra de escultura que não destoaria em qualquer cidade da Europa, e que honra sobremaneira os seus autores.
O primeiro senão que opomos respeita ao material empregado, do que ninguém tem culpa; é pena que tanta arte fosse desperdiçada numa obra de cimento armado e não pedra; infelizmente seu custo atingiria uma importância tal que era absolutamente impossível executa-la. Temos que nos curvar perante este argumento.
A figura do soldado está perfeita, perfeitíssima até; quando supúnhamos que iríamos encontrar um esboço apenas, mais uma figura adivinhada do que vista, uma figura que impressionasse mais o cérebro do que os olhos, surge-nos uma estátua que só por si mostra a grande categoria do seu autor.
É uma obra perfeita: posição, os pormenores do fardamento, máscara, mochila, etc, tudo é perfeita, harmónica, bela! Os safões, as grevas e o pouco que se vê do calção têm uma verdade dificilmente ultrapassável.
Mal compreendemos que numa figura tão bem estudada a espingarda não tenha baioneta; possivelmente, por ser uma peça esculpida à parte, teria havido esquecimento ao serem enviados os diferentes blocos que compõem o monumento, mas se esquecimento houve urge remedia-lo porque se traduz num erro.
O pelico, na parte sobranceira aos ombros está um pouco acanhado, talvez ficasse mais elegante, se um pelico é susceptível de elegância, se fosse um pouco maior. Bem sabemos que a elegância era cousa de nenhuma monta para quem estava nas trincheiras e se ha pelicos largos tambem os ha acanhados...
A figura do centro, embora sem grande vinco agrada tambem sem reservas, tem magestade, força, serenidade.
A terceira figura tem, quanto a nós, um pouco de tudo: de muitissimo bom; de bom e até um pouco de inferior.
O tronco, pescoço, as pernas e os braços vistos isoladamente são de uma extraordinaria perfeição, superior talvês ao soldado; a musculatura das pernas, principalmente das côxas, e dos braços dão uma enorme vida e relevo á figura; os tendões do pescoço e as costelas estão maravilhosamente esculpidos.
Analisadas isoladamente as diferentes partes que compõem esta figura temos a impressão, de que foi cuidadosissimamente executada por um grande artista.
Esta figura, a que não falta a nota realista, seria a melhor do conjunto se a posição não fosse tão contrafeita e errada até.
Contrafeita, por nada natural, a posição do braço esquerdo que, embora num tronco torcido, leva a mão muito para dentro da figura, pelo lado oposto.
A posição do braço, tal como está não tem significação. As atitudes em que se ajoelha são inumeráveis, sem duvida, mas ha posições naturais e outras que o não são, embora todas elas sejam possíveis. As atitudes contrafeitas por via de regra devem simbolisar qualquer sentimento ou esforço, o que se não dá no caso presente.
Finalmente só um atleta excepcionalmente conformado pode tomar a atitude da figura: ajoelhado, assentar as nádegas na parte interior dos pés; esta posição pode ser tomada por crianças ou por homens serpentes, nunca por um atleta ou mesmo por pessoa normalmente conformada, porque a musculatura da coxa e da perna a isso se opõe.
Propositadamente quizemos com verdade dar aos nossos leitores a impressão causada pelas figuras, dizendo bem daquilo que nos parecia bom ou muito bom e dizendo mal no que nos parecia um pouco inferior; não louvamos incondicionalmente a despeito do enorme desejo de que o monumento seja digno da cidade; e neste ponto estejamos descansados: o artista Roque Gameiro produziu uma obra que ficaria muito bem em qualquer grande cidade da Europa....” (JA1578).
Este novo anteprojecto foi mais simples, mais barato e possível de concretizar. O monumento encontra-se na Praça da República e a maqueta no AHCA (fig. 19/19 a).

SÓCIOS BENEMÉRITOS E DE HONRA, DA L.C.G.G. NA ÁREA DE ABRANTES
Devido à Cruzada de bem fazer, dando espectáculos de beneficência de toda a ordem, a favor das viúvas e órfãos dos Combatentes, a direcção da Sub-Agência de Abrantes conferiu, em 1933, ao já extinto Grémio de Instrução Musical de Abrantes o diploma de “Sócio Benemérito”.
Também na mesma data, devido aos serviços prestados que consistiam em consultas e tratamentos clínicos gratuitos, operações cirúrgicas gratuitas ou com insignificante remuneração, pagamento de medicamentos, fornecimento de leite e outros géneros aos mais necessitados, resolveu a direcção conferir ao já falecido Dr. João José Alves Mineiro, do Tramagal, o diploma de “Sócio Benemérito”.
Igualmente, pela notável arte que cultiva, pela propaganda que desenvolve em prol da nossa terra, promovendo numerosos espectáculos anualmente a favor da Liga dos Combatentes, ao Orfeão de Abrantes, instituição fundada em 1929, é conferido, em 6 de Novembro de 1933, o diploma de “Sócio Benemérito” (fig. 20).

De acordo com o Estatuto, Regulamento Geral e Funcionamento da Liga dos Combatentes, está isento de pagamento de quotas e quaisquer outros encargos, podendo, no entanto, prestar contribuições à Liga. Como sócio Benemérito pessoa colectiva pode exercer o seu direito de representação e de reclamação, através de um membro seu ou mandatário para cada caso devidamente credenciado.
A 4 de Dezembro de 1933, a Direcção da Sub-Agência da Liga dos Combatentes da Grande Guerra de Abrantes propôs, à Junta Central, que (devido aos benefícios recebidos do Município de Abrantes, entre os quais avulta a cedência no cemitério da cidade de um talhão para as sepulturas dos combatentes falecidos, a contribuição de 500$00 para auxílio do estandarte e o fornecimento gratuito de energia eléctrica e de piquetes de bombeiros para os diversos espectáculos realizados em benefício do seu cofre de pensões) concedesse à Câmara Municipal de Abrantes o “Diploma de Sócio de Honra”, o que veio a acontecer em 20 de Janeiro de 1934 (fig. 21).

CAPÍTULO V

NOMES DE RUAS E LARGOS DEDICADOS AOS COMBATENTES DA GRANDE GUERRA NO CONCELHO DE ABRANTES
Após o Armistício, o entusiasmo e solidariedade do povo do Concelho de Abrantes e limítrofes para com os combatentes da Grande Guerra, levou a Sub-Agência de Abrantes a solicitar que as juntas de freguesia atribuíssem na sua localidade o nome de “Rua dos Combatentes da Grande Guerra”.
Em 1932, a gerência da Liga, faz sair um comunicado onde em tom crítico diz: “Poucas foram as Juntas que deram a sua adesão a essa manifestação de respeito pela memória dos seus conterrâneos que tombaram no campo de honra. Seria interessante e da maior oportunidade que as restantes juntas de freguesia conseguissem, para a aldeia, sua sede, indispensável autorização, de forma a que, no próximo aniversário do armistício, dia 11 de Novembro, em qualquer das suas ruas fossem inauguradas as respectivas placas toponímicas. Tendo assim lugar a prestação duma tão justa homenagem”.
Abrantes – A única referência a uma rua de Abrantes, dedicada aos Combatentes da Grande Guerra, aparece no livro de Toponímia Abrantina e diz o seguinte: “em sessão de 14 de Outubro de 1926 foi presente à Câmara Municipal de Abrantes um requerimento da direcção-geral da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, no qual era solicitado que a uma das ruas de Abrantes fosse atribuída a designação de Combatentes da Grande Guerra, tendo a Câmara deliberado dar conhecimento do requerimento à comissão incumbida de estudar a nova nomenclatura das ruas da cidade, sendo satisfeito o pedido em 11 de Maio do ano seguinte”.
Porém, segundo Eduardo Campos, numa carta que me endereçou em 24 de Outubro de 2003, informa da decisão da C.M.A. ter sido tomada em 25 de Março de 1996, quarenta anos depois (fig. 22).

A ser assim, tal decisão pecou por tardia, quando, em 1928, o Jornal de Abrantes n.º 1427 de 22 de Janeiro, animado pelo espírito crítico mas construtivo que reinava na época dizia: “Na avenida Defensores Chaves que a Câmara deveria ter chamado Avenida dos Combatentes da Grande Guerra e a que o publico continua a chamar Avenida das Primas, estão-se abrindo duas ruas que vão dar ao mercado”.
Tramagal – Não havendo uma certeza absoluta do dia da sua inauguração, a Direcção da Liga de Abrantes tomou conhecimento, no mês de Janeiro de 1934, de que a Câmara Municipal de Abrantes decidiu dar o nome de Largo dos Combatentes da Grande Guerra, ao Largo conhecido pelo povo de “Ribeiro Seco” no Tramagal. Do facto resolveu a Direcção agradecer à C.M.A. (fig. 23/23 a).

Rio de Moinhos – Sensibilizada com o pedido da Sub-Agência de Abrantes da L.C.G.G., a Junta de Freguesia de Rio de Moinhos solicitou autorização, em 1930, para dar o nome de Rua dos Combatentes da Grande Guerra a uma das suas ruas. Como curiosidade refira-se que esta rua ostenta placas (recentes) em ambos os extremos da mesma, uma com a designação de “Rua dos Combatentes” e outra como Rua dos Combatentes da Grande Guerra o que efectivamente é, de acordo com a lista do Código Postal (fig. 24/24 a).

Pego – Também esta freguesia possui uma rua dedicada aos C.G.G. Durante o levantamento da existência real das ruas, verificou-se que devido à recuperação das casas antigas, as placas toponímicas foram retiradas. Contactada a Junta de Freguesia, em 19 de Novembro de 2003, a mesma endereçou, em 27 de Janeiro de 2004, uma carta ao Núcleo da L. C. de Abrantes informando de que as placas toponímicas tinham aparecido. Porque as mesmas se encontram na Junta de Freguesia e não nos prédios restaurados, optei por mostrar uma das placas e a casa onde a mesma devia estar colocada (fig. 25/25 a). Bemposta – Esta freguesia do concelho de Abrantes possui, sem dúvida alguma, a mais bonita rua dedicada aos Combatentes da Grande Guerra. Logo no início, encontra-se em local bem visível a placa que designa o nome da rua, terminando esta junto à Igreja. Tal como as freguesias com toponímia dedicada aos Combatentes, também esta Freguesia consegue resistir à tentativa de mudar a designação das ruas, perpetuando desta forma os seus heróis (fig. 26/26 a).S. Facundo – Foi provavelmente a primeira freguesia do concelho a ter uma rua dedicada aos C.G.G. Esta freguesia do concelho de Abrantes, no dia 20 de Março de 1930, promoveu uma homenagem aos C.G.G., onde assistiram civis e militares de Abrantes e representantes da Câmara e Sub-Agência da Liga dos Combatentes. Do programa constou a romagem ao cemitério, onde foi colocada uma lápide na campa do combatente António Chambel, sendo descerrada uma placa toponímica numa das ruas da aldeia com o nome de Rua dos Combatentes da Grande Guerra. Ao contrário de outras freguesias, esta, após o restauro das suas casas antigas, manteve as placas nos locais originais (fig. 27/27 a).LOCALIDADES DE OUTROS CONCELHOS COM NOMES DE RUAS E LARGOS DEDICADOS AOS C.G.G. E DO ULTRAMAR – ÁREA DE ACÇÃO DO NÚCLEO DE ABRANTES
Sardoal – Av. Heróis do Ultramar.
Mação – Largo dos Combatentes da Grande Guerra, com um memorial dedicado aos heróis do seu Concelho.
Constância – Rua dos Combatentes (Santa Margarida da Coutada)
Rua dos Combatentes (Constância Sul)
Rua dos Combatentes (Malpique)
Travessa dos Combatentes (Malpique)
Ponte de Sor – Rua dos Combatentes da Grande Guerra (Ponte de Sor)
Travessa dos Combatentes (Foros de Arrão)
Travessa dos Combatentes (Montargil)Rua Heróis do Ultramar (Montargil)

CAPÍTULO VI

TALHÃO DO COMBATENTE
A Sub-Agência de Abrantes, para dar conta da sua gerência do ano social de 1931/1932, emite o seguinte comunicado:
“As campas dos combatentes, existentes no cemitério desta Cidade, não tinham qualquer indicação especial, como não havia talhão especialmente destinados aos seus enterramentos. A fim de obstar à continuação desse estado de coisas, mandou a Direcção fazer umas cruzes especiais, cabendo aqui dizer que foram graciosamente oferecidas pelo Grupo de Artilharia n.º 24, que foram colocadas nas campas existentes. Enquanto ao talhão, a Câmara Municipal de Abrantes acedeu a destinar um talhão para as sepulturas dos combatentes que, de futuro, venham a falecer” (fig. 28).

PRIMEIRO MORTO
Olhei a sua face. (Era ao sol posto),
Adormecera em derradeiro sonno.
E tão novito, que tristeza! O rôsto
Tinha a côr da folhagem no outôno.

Tombara como heroi. Um estilhaço
Abrira a chaga no seu peito forte.
Cruzara ainda os braços, num abraço
Em que estreitasse, à despedida, a Morte.

Ficaria p’ra sempre em terra estranha!
E o olhar revelava a dôr tamanha
De não sentir, para beija-lo, alguem!

Olhei-o ainda uma vez: - E, que tortura!
Os seus lábios, num rictus de amargura,
Pareciam gemer: - «Ó minha mãe!»
Um oficial do C.E.P.


CURIOSIDADES

EMBLEMA DO SPORT LISBOA E BENFICA
Na base do Monumento aos mortos GG 1914/1918, encontra-se a placa (fig. 29), com os seguintes dizeres:

“DIA DO BENFICA EM ABRANTES
Homenagem da C.A.
Ao
S.L. e Benfica 20/6/1948”

NOTA: Durante o restauro do Monumento, a “PLACA” acima referida foi retirada do local. No seu lugar foi colocada uma outra, indicando a data e quem fez o restauro.
A homenagem prestada pelo Sporting Lisboa e Benfica no mês de Junho de 1948, aos Combatentes da Grande Guerra e à população de Abrantes nunca mais será recordada. Não tivesse esta história sido escrita alguns anos antes do restauro do Monumento, jamais alguém saberia que os Combatentes da Grande Guerra foram homenageados pelo Sporting Lisboa e Benfica.
Nota: Veja a história em: “AQUI ACABOU A HISTÓRIA…”
CAIXAS DE FÓSFOROS “OS COMBATENTES
Em 1930, a Fábrica da Companhia Lusitana de fósforos colocou à venda uma marca de fósforos ao qual deu o nome de “Os Combatentes”, da qual a Liga dos Combatentes da Grande Guerra cobrava $05 por caixa, tendo como objectivo único as vítimas de guerra (Fig. 29 a).

PATRULHA DOS COMBATENTES
ABRANTES – Chegou a esta cidade, às 10H30 do dia 16 de Junho de 1935, a Patrulha dos Combatentes. Constituída por três combatentes da G.G., iniciaram a volta a Portugal a pé, no dia 9 de Abril. Tendo como objectivo visitar todos os Núcleos da L.C.G.G., e depor um ramo de flores nos monumentos erectos no País à memória dos que nela tombaram. Foram hóspedes da L.C.G.G. de Abrantes e pernoitaram no Casal do Telhado, no Bivaque de Tropas, tendo assistido a um exercício de fogos reais. A Patrulha, após 5 dias de merecido descanso, retirou-se no dia 21 em direcção à Barquinha, levando da nossa cidade as melhores das impressões (fig. 30).

CUSTOS COM O PROJECTO DO MONUMENTO AOS MORTOS DA G.G. 1914/1918
ABRANTES - Tendo-se demitido a Comissão do Monumento aos Mortos da Grande Guerra, a mesma tornou públicas as contas desde o início até 31 de Dezembro de 1930 e que foram as seguintes: Despesas com o projecto do monumento 50.000$10 e foram pagos ao arquitecto Francisco Nogueira em três prestações de 16.666$70. A primeira foi paga em 14 de Agosto de 1929, a segunda em 13 de Dezembro do mesmo ano e a terceira e última prestação em 17 de Novembro de 1930.
MONUMENTOS E MEMORIAIS DE HOMENAGEM AO COMBATENTE DO ULTRAMAR
A Liga dos Combatentes de Abrantes tem inscrito neste Núcleo sócios dos concelhos de Constância, Gavião, Mação, Ponte de Sôr e Vila de Rei, entre outros. No entanto, para este trabalho apenas se limitou a explorar a área do concelho de Abrantes, deixando para posterior pesquisa outros monumentos que porventura possam existir.
Assim, no Concelho de Abrantes foram inventariados os monumentos e memoriais:
Regimento de Infantaria N.º 2 – O monumento da fig. 31, em granito e bronze, foi inaugurado em 1959, tendo inscrito os nomes dos mortos do R.I. N.º 2 que tombaram pela Pátria na Guerra 1914/1918, tal como se verifica junto ao lampadário. Ao monumento foram acrescentadas as partes laterais no mesmo tipo de pedra e placas de bronze, vendo-se num dos lados as inscrições das províncias ultramarinas de Angola/Cabo Verde/Guiné e Moçambique e no outro lado a frase: “AOS MORTOS DO ULTRAMAR”. Estas partes laterais foram inauguradas em 30 de Julho de 1970.

O monumento da fig. 32 também foi inaugurado na mesma data. Representa as Guerras Peninsulares onde o RI 2 esteve envolvido. Após o 25 de Abril de 1974, foi acrescentado ao lado direito do mesmo o local onde o RI 2 esteve envolvido com as suas forças expedicionárias.

Por extinção do BC5, o RI 2 herdou as tradições e condecorações do mesmo. Por esse facto, vindas do ex-Batalhão de Caçadores 5 – Lisboa, encontram-se à entrada do Quartel as placas memoriais dos Combatentes falecidos na Guerra do Ultramar, (fig. 33/33 a).

NOTA: Com a saída do R.I. Nº 2 de Abrantes e a colocação da Escola Prática de Cavalaria nesta cidade, é provável as placas já não se encontrarem no lugar original.