Translate

CISTERNAS DE ABRANTES II

“Em algumas áreas do planeta começa a haver sinais de tensão. A principal causa! Água potável, o “ouro azul” do nosso Século...”
Por José Manuel d’Oliveira Vieira
Artigo autor publicado no "Jornal de Alferrarede" Nº 285JUL2009
Com o advento da água canalizada a Abrantes em 1891, as cisternas desta “Vila” perderam a sua função militar e estratégica.
Esquecidas as funções que desempenharam no passado, as cisternas são hoje um património histórico que urge preservar.
No interior das casas, em jardins e pequenos quintais, em 2009, ainda é possível encontrar na cidade Abrantes, um dos processos mais expeditos de armazenar água.
A contrastar com tão grande número de cisternas, 69 em 1817, 111 em 1856, às não mais de 50/60 em 2009, algumas continuam a servir os abrantinos como o faziam no Século XIX.
A conveniência em possuir estes “poços inactivos” era tão relevante para a comunidade que cento e trinta e sete anos depois (1817/1954), a Câmara Municipal de Abrantes, no dia 6 de Janeiro de 1954, decidiu levar o assunto à assembleia municipal, ficando escrito em acta: “Cisternas – Considerando o número elevado de cisternas existentes na cidade e o benefício que podem prestar no caso de incêndio e falta de água, a Câmara deliberou que os Serviços Técnicos organizem um cadastro dos mesmos, sua localização e capacidade aproximada. Mais deliberou estudar o aproveitamento das águas dos telhados do novo hotel para a cisterna existente no alto de Santo António, largo confinante com o respectivo Hotel”.
Em 2006, aquando da publicação do primeiro artigo sobre “AS CISTERNAS DE ABRANTES I” socorri-me de uma “Planta da Vila de 1856”, com o nome das antigas ruas, para localizar as cisternas.
Na CISTERNAS DE ABRANTES II segue-se o mesmo método: a seguir ao nome das antigas artérias aparece o número de cisternas ai existentes no ano de 1856 e nestas a placa toponímica das actuais ruas.
De todos os contactos efectuados para a realização do presente trabalho, apenas um dos proprietários não autorizou o registo do seu “algibe”.
A requalificação futura do espaço e ser necessário proceder à demolição da cisterna parece ser a causa para manter o local reservado dos olhares públicos.
A não serem tomadas medidas preventivas, muitas das “CISTERNAS DE ABRANTES”, poderão estar irremediavelmente perdidas. O motivo já mencionado, aliado à ruína prematura, poderá fazer desaparecer algumas cisternas e com elas um pouco da história e quotidiano dos abrantinos, até finais do Século XIX.
Das quarenta e cinco cisternas que tivemos o prazer de ver e registar, de realçar o empenho dos proprietários que durante a requalificação dos edifícios, em vez de procederem à destruição das suas cisternas as restauraram e enquadraram nos espaços envolventes.
No interior ou exterior das casas (senhoriais ou não), a ornamentar pequenos jardins ou quintais, recuperadas ou por recuperar, a maioria das cisternas aqui registadas encontra-se a funcionar tal como no tempo em que foram construídas.
“Abrantes, praça de guerra, por vezes sujeita a cercos, o problema da água mereceu, em todos os tempos, aos seus habitantes, ás vereações, aos alcaides mores e aos governos o maior cuidado…muitas cisternas eram cuidadosamente tratadas e prestaram serviços à terra” (Diogo Oleiro)
“CISTERNAS DE ABRANTES I e II” não tratam de um estudo sobre as origens ou métodos de construção destes antiquíssimos métodos de armazenamento de água.
“CISTERNAS DE ABRANTES I e II” apenas pretende sensibilizar proprietários e entidades responsáveis pelo património local, para a recuperação e restauro destas jóias do passado:
CASTELO – sete cisternas
Com o apoio da Arqueóloga da C.M.A, Dr.ª Filomena Gaspar, foi possível localizar as últimas quatro das sete cisternas existentes no Castelo de Abrantes (fig. 1). A cisterna que se vê em primeiro plano à direita, na mesma figura, foi modificada e transformada em paiol de munições pelos militares.
fig.1
PRAÇAS DA PALHA, ROCIO E PROXIMIDADES – onze cisternas
Foi este antigo Convento de S. Domingos durante muitos anos o quartel do RI2. Dado o interesse e a utilidade dada ás cisternas pelos militares a que se encontra à entrada do Parque de Estacionamento do Convento de S. Domingos (fig. 2), escapou à fúria demolidora do progresso.
Além do Convento de S. Domingos, as cisternas que se encontram no Largo Dr. Ramiro Guedes (fig. 3), “Residencial Lírius*** na Praça Barão da Batalha e a que está no jardim desta mesma casa na Travessa do Barata (fig. 4/5) estão englobadas no conjunto das onze cisternas então existentes na Praça da Palha, Rocio e Proximidades.
fig.2
fig.3

fig.4/5
S. VICENTE – três cisternas
Até ser dividida ao meio, S. Vicente começava junto ao Adro velho da Igreja com o mesmo nome até ao actual Largo da Ferraria. Neste espaço onde existiam 3 cisternas, apenas referenciamos duas (fig. 6 e 7).
fig.6
fig.7
RUA DO CHAFARIZ – seis cisternas
Das seis cisternas que existiram em 1856, nesta antiga Rua do Chafariz apenas uma foi detectada. Uma placa de chapa colocada na boca da cisterna com as iniciais: LMP 1906 parece indicar o ano da sua construção (fig. 8).
fig.8
RUA DOS OLEIROS E DA BOGA – nove cisternas
A Rua dos Oleiros e Rua da Boga correspondem hoje á actual Rua Maria de Lurdes Pintassilgo e Condes de Abrantes. Nestas duas ruas existiam nove cisternas. Publicadas que foram duas em 2006, publica-se agora mais três: uma na Rua Condes de Abrantes (fig. 9) e duas na Rua Maria de Lurdes Pintassilgo (fig. 10 e 11). Na Rua Condes de Abrantes, em propriedade do Dr. Silva Tavares sabe-se existir uma cisterna em muito mau estado (não registada neste trabalho).
fig.9

fig.10

fig.11
RUAS DO OUTEIRO E OLARIAS – sete cisternas
Neste conjunto de ruas existiram sete cisternas. Na Rua D. João IV, antiga Olarias Velhas, numa casa sobejamente conhecidas dos Abrantinos, “Casa dos Almadas”, são conhecidas duas cisternas (fig. 12 e 13). Uma encontra-se no interior da mansão (Casa da Cisterna) e outra no jardim do palacete, sendo que uma delas tem origem numa nascente.

fig.12/13

RUA GRANDE – treze cisternas
Era a rua com o maior número de cisternas existentes em Abrantes. Em Julho de 2006 o “Jornal de Alferrarede” publicou uma.
Tivesse sido autorizado o registo de uma cisterna existente na antiga Rua Grande, hoje Santos e Silva e não tivesse sido demolido e transformado em calabouço a cisterna na casa do Comendador Patarroxa, em tempos Escola Industrial e Comercial de Abrantes, mais tarde Policia de Segurança Publica, em vez das duas (fig. 14 e 15), hoje teríamos aqui o registo de quatro cisternas.

fig.14

fig.15

RUA DAS ESTALAGENS E DO CABO – cinco cisternas
Das cinco cisternas existentes na hoje Rua Luís de Camões e Rua Nossa Senhora da Conceição, apenas duas foram inventariadas em 2006.
Obra de requalificação no prédio onde se encontrava um dos algibes mais antigos de Abrantes já não existe. Para memória fica a foto do prédio e de ali ter estado uma cisterna até ao ano de 2007 (fig. 16).
Na Rua Nossa Senhora da Conceição, no edifício mais antigo ai existente, um belo exemplar de cisterna continua a servir a sua proprietária (fig. 17).

fig.16

fig.17

RUA DOS AÇOUTADOS
Na Rua D. Miguel de Almeida, antiga Rua dos Açoutados, uma das mais populosas ruas de Abrantes em 1707, encontram-se duas cisternas (fig. 18 e 19). A cisterna existente no edifício onde em tempos foi a “Pensão Santos”, tem a particularidade de se poder retirar água pela abertura superior e inferior, dado que esta é aberta ao nível inferior da casa.

fig.18

fig.19

RUAS DA BARCA – doze cisternas
A demolição de prédios antigos nas ruas D. Nuno Álvares Pereira e Rua da Barca, poderá ser a origem para o desaparecimento das cinco cisternas que faltam localizar. Além das três publicadas neste jornal em 2006, publicam-se hoje mais quatro: Rua da Barca (fig. 20 e 21). Rua D. Nuno Álvares Pereira (fig. 22 e 23) (b).

fig.20

fig.21

fig.22

fig.23

RUA DE S. PEDRO – quatro cisternas
Rua das Coelheiras em 1301 e Rua de S. Pedro em 1722.
Dos oito moradores que esta rua tinha em 1757, quatro possuíam cisterna, uma das quais publicada na Edição Nº 249 do “Jornal de Alferrarede”.
Das três cisternas em falta, foram referenciadas mais duas, umas das quais se publica neste pequeno trabalho (fig. 24).
Por fotografar fica a cisterna de uma moradia situada entre os edifícios “Carneiro e Diogo Oleiro”, referenciada quando este artigo se encontrava concluído.

fig.24

(a) – Cisternas de Abrantes I, publicado no Jornal de Alferrarede nº 249 de Julho de 2006.
(b) – O estado de ruína em que se encontra a casa da fig. 23 não permitiu fotografar a cisterna ai existente.
(c) – Toponímia Abrantina – Eduardo Campos 1982
AgradecimentoAos proprietários que autorizaram a captação das imagens aqui publicadosdas o meu muito obrigado.

Sem comentários: