Translate

ABRANTES INAUGURA A SUA PRAÇA DE TOUROS (8 DE JULHO DE 1900)

Por José Manuel d’Oliveira Vieira
(Autor Artigo "Jornal de Alferrarede" Junho2007)
À pergunta de um aficionado da festa brava, se conhecia a história da “Praça de Touros de Abrantes”, disse saber o local onde se encontrava e o que resta das suas bancadas.
Achando o tema interessante, até porque sabia onde encontrar alguma matéria e fotos, decidi escrever este artigo, procurando juntar num único bloco o que de mais interessante encontrei sobre o que foi a “Praça de Abrantes”.
As corridas de touros em Abrantes, já não eram novidade, aquando da construção da “Praça” nesta “Vila” em 1900.
Sobre o assunto (Século XVI/XVII), o Historiado, Professor Doutor Joaquim Candeias da Silva, diz no seu livro “Abrantes, A Vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640): “…que embora não exclusiva desta paróquia patrocinava as festas do Espírito Santo (ou Pentecostes) e as touradas que se realizavam nesse dia (a).”
Alguns cartazes anteriores a 1900 chegaram até aos nossos dias. Como curiosidade, refira-se um de 1877 que teve dupla intenção. A Tourada foi feita em benefício do “Monte-Pio Abrantino” e serviu para “solenizar a entrada das baterias de Artilharia nº 2 em Abrantes” (fig. 1).
Nas fotos de 1896 (fig. 2/3) é possível ver com alguma nitidez o “Rossio”, actual Jardim da Republica, local onde se realizavam as touradas, vendo-se na parte superior da fotografia o telhado do Convento de S. Domingos, hoje Biblioteca Municipal António Botto. Encontrar em Abrantes relíquias relacionadas com a “Praça de Touros” não foi fácil. No entanto, em casa do senhor José Alberty, empresário e proprietário da “Quinta de Coalhos, Turismo de Habitação”, fomos encontrar o cartaz original da inauguração da “Praça” em 8 de Julho de 1900 (fig.4), bem como as fotografias dos fundadores da “arena de Abrantes”, António e João Franco (fig. 5/6). A ideia de construir uma Praça de Touros na Vila, já há muito era falado por João Soares, Luís de Almeida, Francisco Burguete e Emílio Segurado, quando no dia de S. João (24 de Junho de 1898), no Campo de exercícios do Exército, no Vale de Roubam, o Montepio Abrantino realizou uma corrida de bicicletas.
Entre as mais de duas mil pessoas que assistiam ao evento patrocinado pelo Montepio Abrantino, estavam, António Franco e António de Almeida Frazão. Este grupo de amigos, vendo tão grande aglomerado de populares a assistir aos festejos, ali decidiu avançar para a construção de uma Praça de Touros em Abrantes.
Há noite, no Jardim do Castelo, nas grandes Festas de S. João realizadas a favor do Montepio Abrantino, António Apolinário foi convidado a fazer parte da empresa.
Não perder tempo, era uma das tarefas deste grupo de amigos. Assim, às 6 da manhã, do dia 18 de Julho de 1898, reuniram-se em Santo António, local escolhido para a construção da Praça, os órgãos de comunicação, “O Abrantes”, “Riomoinhense” correspondente de “O Século”, e ainda os senhores Dr. Ramiro Guedes, José de Jesus, Egídio Salgueiro, Dr. Correia Campos, Dr. Ludgero Moreira e muitos curiosos.
Feita a escritura da constituição da empresa no dia 3 de Agosto do mesmo ano e fixado o fundo social em 6.000$000 réis, foi comprado a D. Ana Olímpio Vaz da Silva Rosa, um terreno com 5.000 metros quadrados.
A empreitada para a construção e execução dos trabalhos de alvenaria, foram, por escritura pública, no dia 16 de Setembro, dados a José Gadanho Serra.
Garantir que as muralhas de Santo António, não seriam danificadas foi o passo seguinte. Para isso, a Inspecção de Enge­nharia, representada por Avelar Machado, o Ministério da Guerra por M. J. Góis e a empresa por António Apolinário, assinaram uma escritura pública cm que o Governo concedia à dita empre­sa, licença para construir a Pra­ça a 130 metros de distância das referidas muralhas (fig. 7).António de Almeida Frazão, após a morte do seu filho, deixa a sociedade da empresa, no dia 15 de Maio de 1899, juntamente com António Apolinário. Os direitos da Praça são transferidos para os irmãos: João Franco e António Franco que a expensas suas e muitos sacrifícios, conseguiram dar aos aficionados e à Vila de Abrantes a muito desejada Praça de Touros.
Entre a compra do terreno e a construção da “Praça”, muita polémica houve: pegadilhas políticas, suspensão e reconstrução das obras, liquidação e dissolução da empresa. Tudo isto aconteceu até ao final das obras em Junho de 1900.
Feita a vistoria à “Praça de Touros de Abrantes”, esta foi inaugurada no dia 8 de Julho de 1900 (fig. 8/9/10).O cavaleiro Fernando de Oliveira e “El Espadeirito”, foram os primeiros a pisar a arena da “Vila de Abrantes”.
Muitos foram os bandarilheiros, grupo de forcados, campinos a cavalo e cavaleiros a realizar gloriosas touradas nesta magnífica praça. Entre as muitas ali realizadas para obras de caridade, destaca-se a de 3 de Agosto de 1919 (fig. 11), patrocinada por um grupo de senhoras de Abrantes, cujos lucros se destinavam à Santa Casa da Misericórdia. Abrantes também tinha o seu cavaleiro: José de Almada Burguete (fig. 12) e o seu belo cavalo de “Alter-Real” que por diversas vezes foram ovacionados na praça de Abrantes.Também no redondel da Vila de Abrantes, o bandarilheiro Francisco Fróis (El Colecta) (fig. 13), actuou algumas vezes. Como curiosidade refira-se que Francisco Fróis, quando convidado pelo Alferes José Maria Guedes para actuar na praça de Abrantes, ficava hospedado na “república” dos oficiais de Artilharia Nº 8.Após muitos anos, a Praça de Touros de Abrantes havia de morrer sem glória. Numa das melhores praças da província, construída em alvenaria e concebida para 3500 lugares, deixou-se de ouvir o cornetim
Os aficionados que assistiram à sua inauguração e os irmãos Franco que a mandaram construir e a inauguraram, viram o lento ruir do seu tauródromo, consequência dum inconcebível abandono.
Já em ruína, as touradas deram lugar a garraiadas, torneios de hipismo e á prática de futebol pelos mais novos.
De particulares para as mãos do Estado o fim definitivo da Praça de Touros ocorreu no dia 8 de Novembro de 1955, com a compra à Santa Casa da Misericórdia dos terrenos para dar lugar à construção da Escola Industrial e Comercial de Abrantes, hoje Escola Secundária Dr. Solano de Abreu (ESSA). Da Praça de Touros de Abrantes restam hoje parte das suas bancadas. As mesmas servem para os alunos da ESSA assistirem a outros torneios que não a lides tauromáquicas (fig. 14/15). Referências sobre a prática taurina e “Praça de Touros de Abrantes”:
(a) “Joaquim Candeias da Silva”, Abrantes, A Vila e o seu termo no tempo dos Filipes (1580-1640), pg.459,460. “José Alberty”, fotografias dos irmãos João e António Franco e cartaz original da inauguração Praça de Touros de Abrantes, 8JUL1900. “Carlos Vieira Dias”, negativo ruínas da bancada Praça de Touros de Abrantes. “Jornal de Alferrarede”, cartaz original corrida a favor Santa Casa Misericórdia 3 de Agosto 1919, talão original de ingresso praça touros ano 1902, foto localização Praça de Touros de Abrantes e fotos da corrida realizada em 1896, na hoje “Praça da República”, fotos estas emprestadas pelo Sr Engenheiro Pães do Amaral, Conde de Alferrarede e fotocópia talão de ingresso Praça de Touros de Abrantes 5 de Agosto 1900. “Biblioteca Municipal António Botto”, fotos Praça de Touros de Abrantes. “Vida Ribatejana”, anos 1958 e 1960, fotos Francisco Fróis e José Almada Burguette, revistas emprestadas pelo assinante Virgílio Esparteiro. Jornal o “O ABRANTES”, nºs 328, 332, 333, 382, 388, 392, 393, 394, 396, 397, 398 (anos 1898 a 1900). “Jornal de Abrantes”, nºs 3, 8, 9, 10, 11, 13 (ano 1900). “Cronologia de Abrantes no Século XIX – Eduardo Campos”, cartaz da corrida de Agosto de 1877.

1 comentário:

Rui disse...

Em tempos que já lá vão,ter existido uma praça de touros em Abrantes, para mim é novidade.Bem haja à pessoa que se preocupa em divulgar estas coisas aos Abrantinos e não só!.
Obrigado.

Rui